..NAUFRÁGIO do GLENLOGAN
(Vapor do Paracuru)
 

A pesquisa

Há muitos anos já era conhecido entre os mergulhadores de Fortaleza, CE. um naufrágio batizado como Vapor de Paracurú. Ele distava cerca de 7 milhas da costa dessa cidade ao norte de Fortaleza. Porém, sua identificação não era conhecida até hoje (abril de 2024).
Agora de posse das notícias dos jornais da época e do Tribunal Marítimo Britânico, com a descrição da posição do naufrágio e da carga do navio e muitas conversas com o Augusto César do Instituto Histórico do Ceará e os mergulhadores Alexandre Martorano e Rodrigo Bricks, que conheciam o naufrágio desde 2011, foi possível identificar com certeza mais esse naufrágio brasileiro.
Trata-se do vapor inglês Glenlogan. A pesquisa se tornou confusa, pois a notícia do jornal afirmava que o vapor pertencia a companhia Glen Line Steamers, cujos vapores começavam sempre coma palavra Glen (Glenalmond, Glenartney, Glenbeg etc). Nas listas da companhia não está registrado esse vapor, mas na sucessão dessa companhia existiu outro Glenlogan, lançado ao mar em 1896 e que foi torpedeado por um submarino alemão no Mediterrâneo em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial e muitos dos dados se confundiram.
Foram necessárias pesquisas nos arquivos do Tribunal Marítimo de Londres para diferenciar os dois navios e fechar a identificação do Vapor do Paracurú.
O vapor do Paracuru está afundado a 7 milhas da costa e em seu interior existem diversas rodas de trem, muito características, das quais eu já tinha conhecimento e registro no SINAU (Sistema de Informações de Naufrágios). Esta foi à pista que chamou minha atenção, quando li nos jornais de época as notícias do afundamento do Glenlogan, com a mesma carga declarada.
 
 

Histórico
O vapor inglês Glenlogan, termo que se refere ao subúrbio da cidade de Logan no distrito e Bisbane no estado de Queensland na Austrália.
Tratava-se de um vapor de 925 toneladas da companhia Merchant Steamship Company de Liverpool e que por mais de um ano fez as rotas regulares de Nova York ao Rio de Janeiro com carga e a mala postal.
Esse vapor de ferro foi construído nos estaleiros da Barrow Shipbuilding Company na Inglaterra e foi lançado em 1877. Possuía de 66 metros de comprimento e 8,4 de boca, com máquinas a vapor compostas de dois cilindros que atingiam 100 NHP.

Shipwreck WRECK WRAK EPAVE PECIO
 
Navio semelhante (Glenlyon) da mesma companhia
 

DADOS BÁSICOS

Nome do navio: Glenlogan

Data do afundamento: 04.06.1881

LOCALIZAÇÃO

Local: Fortaleza

UF: CE.

País: Brasil

Posição: ao largo de Paracuru, Barra do Siupé

Latitude: 03 18.661' sul

Longitude: 038 56.786' oeste

Profundidade mínima: 8 metros

Profundidade máxima: 17 metros

CONDIÇÕES ATUAIS: semi-inteiro

DADOS TÉCNICOS
Nacionalidade: Inglesa
Estaleiro:Barrow Shipbuilding Company (Inglaterra) Construção: 1877
Armador: Merchant Steamship company
Comprimento: 67 metros Boca: 8,4 metros
Tipo de embarcação: Cargueiro a vapor
Material do casco: ferro Propulsão: hélice

Carga: Querozene, terebentina, vagões de trem

MOTIVO DO AFUNDAMENTO: Incêndio
 

 
O naufrágio
Segundo as notícias dos jornais e inquérito do Tribunal Marítimo, o Glenlogan viajava de New York para Natal, tendo tocado em portos do Pará e Maranhão. Era comandado pelo capitão Stepham James Rains e sua tripulação era composta de 20 homens, nessa viagem estavam a bordo 2 passageiros.
O vapor levava um carregamento com vários gêneros, entre eles aguardente, terebintina, 15.000 caixas de querosene e vagões de trem para companhia da estrada de ferro de Natal.
Na madrugada do dia 03 de junho de 1881, a aproximadamente 100 milhas ao sul do porto do Ceará (Fortaleza), irrompeu um incêndio a bordo. Segundo a análise do tribunal; o primeiro engenheiro de bordo Robert Fowler mandou, sem que o capitão tivesse conhecimento, o terceiro engenheiro Thomas Leslie, que realizava sua primeira viagem no mar, abrir um buraco em uma parte do coletor de gases à bombordo das máquinas. A tocha, provavelmente atingindo os gases do querosene gerou um incêndio descontrolado. As caixas de querosene, explodiam a cada instante e pioravam a situação.
 
O fogo se tornou descontrolado, principalmente na popa e quando o comandante S. J. Rains foi informado do incêndio e tomou as providências para extingui-lo já era tarde. Assim, percebendo a gravidade da situação ele ordenou o abandono da embarcação. A saída da tripulação e passageiros do vapor foi feita tão rápida que nada puderam salvar, nem mesmo os registros do navio.
A corte inglesa também deliberou que o abandono da embarcação foi precipitado, porém, considerando a perigosa carga a bordo e a necessidade de abandono em ordem e segurança, inocentou o comandante. O primeiro oficial Thomas Adamson participou ativamente do controle do fogo e supõem se que tenha perecido abordo.

O casco de ferro, com claros sinais de derretimento pelo fogo
 
Proa com seu reforço adernada para boreste
Âncora de boreste
Escovéns caidos ao lado do casco
 
Às 10 horas da manhã, com o mar muito agitado, o abandono foi feito em uma lancha com o capitão dois passageiros e nove tripulantes e um escaler, sob o comando do primeiro oficial com 11 tripulantes, um dos bombeiros de bordo foi esquecido a bordo e o escaler voltou para resgata-lo.
O guarda-mor da alfândega de Fortaleza Dr. Marel Digno e o cônsul inglês mandaram imediatamente sair uma lancha leve a procura do outro bote, além de agentes em bicicleta para correr a costa até Aracatí. No entanto, nada foi encontrado. Supôs-se que os náufragos deram à costa em algum outro porto, talvez Aracati. O cônsul inglês Dr. Willian Stuart logo que teve conhecimento do fato providenciou para que todos os marinheiros recebessem os devidos cuidados e acomodações.
No dia 06 duas, léguas abaixo de Iguape, o segundo escaler com o comandante, dois passageiros e nove tripulantes chegaram próximos a terra quando o barco virou e foi lançado a praia. Todos se salvaram, mas perderam seus pertences. caminhando caminhando atingiram, às 10 horas, o porto do Mucuripe. Estavam em estado lastimável, descalços e com os pés chagados, provavelmente por andar durante todo o dia e à noite.
De lá foram transportado em duas carroças e um carro e finalmente, ao meio dia, chegaram a Fortaleza onde foram também acolhidos.
No dia 07 os jornais noticiaram que o vapor Glenlogan foi visto na manhã do dia 6 passando à frente a barra de Fortaleza, completamente abandonado e já sem mastreação. Subia o litoral em direção ao norte, empurrado pelas correntes e pelo vento. O incêndio a bordo ainda dava sinais de estar consumindo a carga e uma grande coluna de fumaça cinza subia aos céus. Jangadeiros de Mucuripe conseguiram chegar até o vapor, mas não tiveram êxito em embarcar devido ao forte calor que emanava do casco.
Foi sugerido na época, que se não tivesse ido a pique durante o trajeto, teria dado a costa em Piraquara. Mas as notícias subsequentes indicaram que o navio naufragou a 30 milhas ao norte de Fortaleza e a 10 milhas da costa (na verdade 7 milhas na região de Paracuru) em profundidade de 19 metros (10 braças), deixando a ponta dos mastros fora d'água.
Os tripulantes do Glenlogan retornaram a Liverpool a bordo do vapor Arthur.
O tribunal concluiu que o único culpado pelos acontecimentos foi o primeiro engenheiro R. Fowler que teve seu registro suspenso por seis meses. O tribunal também acusou o governo brasileiro, por estar o farol de Mucuripe apagado entre 2:30 e 4:00 horas da manhã, embora o incêndio tenha ocorrido a cerca de 100 milhas do farol.

 
Descrição
O navio encontra-se acerca de 12 milhas da barra de Siupé e a costa pode ser vista do ponto do naufrágio.
Os destroços estão em bom estado de conservação, o casco de ferro rebitado está apoiado em um fundo de lama com areia fina e a proa do navio está tombada para boreste com o casco já destroçado.
O casco, que era rebitado, possui cerca de 60 metros de comprimento e em diversops pontos pode ser visto o efeito do incêndio criando uma massa arredondada e compacta. Existem duas caldeiras de 3 fornalhas de cerca de 3 metros de diâmetro.
Na proa, junto a areia existe uma grande âncora almirantado cepo transverso com sua corrente. Também estão caídos os dois escovéns e um turco.
Nos porões os eixos e rodas de trem estão alinhados mostrando estarem os vagões alinhados. Também existem guinchos e cabeços de amarração.
Na popa arredondada ainda existe o bordo alto e junto ao fundo o hélice e leme estão parcialmente enterrados na areia.
 
Caldeira no centro da embarcação
As rodas de trem que faziam parte da carga
Convés de proa já colapsado
 

shipwreck wreckMAgradecimentos
Agradecimentos