ARTEMIS (antigo Guadiana)

Sumário

Pesquisa:  Artur Ramos, Carla Pileggi, Carolina Silva, Daniel Mantovanello, Denise Bentes, Iara Abe,
Matteus Sorage, Maurício Carvalho, Octávio Pileggi, Raul Ramos e Tatiana Mello
Texto:
Maurício Carvalho – Fotos: Maurício Carvalho e Tatiana Mello


A identificação como “Guadiana” e a correção das identidades (resumo)

Conheça toda a pesquisa de identificação dos navios na página  Pesquisas de Abrolhos – Artemis e Guadiana

Em torno do ano de 2000 um novo naufrágio foi localizado nos Abrolhos; as informações que chegavam da região davam conta de ser um navio com cerca de 100 metros de comprimento e que apresentava caldeiras, mas não havia nenhuma identificação desse novo naufrágio.
Em 2003 fui a Abrolhos e assim que os mergulhos começaram, não precisou de muito tempo para me convencer da identidade do novo naufrágio; ele era o  Guadiana.

As fotos são de 2003, nas primeiras medições do naufrágio. Eu e o Instrutor Mário Garcia

Quais eram as evidências para a identificação:
– O comprimento do navio de 110 metros era compatível com o Guadiana;
– As máquinas a vapor, que pareciam de dupla expansão, embora parcialmente encobertas por destroços, eram compatíveis como as do Guadiana; os dois outros navios possíveis possuíam máquinas de tripla expansão.
– Havia linhas de malaguetas e sistemas de suporte da retranca no mastro de proa, que evidenciavam um navio com propulsão a vela além do vapor. O Guadiana era o único alvo com propulsão mista;
– O naufrágio estava firmemente encaixado em um chapeirão devido ao choque, com sua proa na direção norte. O que indicava uma rota de subida do litoral, como Guadiana.
Só o Guadiana correspondia a todos esses requisitos, assim a identificação foi realizada e o Guadiana se tonou um dos naufrágios mais conhecidos do Brasil.

As novas pesquisas
Em 2024 a pesquisadora de naufrágios Tatiana Mello regressando de uma viagem a Abrolhos e trouxe a notícia que um pescador havia localizado um novo naufrágio no Parcel das Paredes e que havia sido localizada no naufrágio uma louça com o símbolo da companhia Royal Mail Steam Packet. Levando em conta que as informações eram verdadeiras.
O único naufrágio nessa região de um navio da companhia inglesa era o Guadiana. Assim, pensando na possibilidade de ter sido feita uma identificação errada, já que a 20 anos a quantidade de dados disponíveis era pequena, começamos uma pesquisa mais aprofundada. As novas informações conseguidas, começaram a mostrar que haviam incongruências nas identidades. Com muito mais informações e uma equipe de pesquisa, em fevereiro de 2026, fomos à Abrolhos e confirmamos as suspeitas de que os destroços conhecidos como “Guadiana” não poderiam ser deste navio e os destroços, muito provavelmente, seriam do navio grego Artemis.
Confira toda a pesquisa e os passos para a identificação no texto completo Pesquisas de Abrolhos.

A foto da louça, enviada para o Site Naufrágios do Brasil, com o emblema da companhia inglesa que teria sido encontrada no novo naufrágio. Não estivemos no naufrágio e também não vimos a louça pessoalmente, mas ela serviu de catalizador para a descoberta de novos dados técnicos e históricos importantes

Histórico

O Artemis

Em todos os jornais brasileiros o nome do navio Artemis aparece grifado como Arthemis, mas nos documentos de registro ele aparece sem o “H’ – Artemis. O cargueiro foi construído em 1901 nos estaleiros Russell Company em Glasgow. Ele era um típico cargueiro com casario central e chaminé única, com dois porões a vante e dois a ré, servidos por mastros de paus de carga quádruplos e dois guinchos de carga. Apresentava 103,3 metros de comprimento e 12,5 metros de boca, deslocando 3.587 toneladas brutas.
Foi lançado ao mar em 29 de janeiro de 1901 com o nome de Contessa Adelma, para a companhia Eredi C Cav Gerolimich de Trieste na Itália. Em 1907 foi vendido a Sociedad di Navegacione Lussino e rebatizado Lussin Piccolo. Em 1923 é vendido para Beis, Falangas & Sakelliou na Grécia e em 1928 é finalmente vendido à companhia grega Diamantis Falangas de Andros e rebatizado Artemis, deusa grega da caça, da vida selvagem, da virgindade, irmã gêmea de Apolo e filha de Zeus.


Dados técnicos do navio segundo o Lloyd’s Register

Dados básicos

Nome do navio: Artemis
Data de afundamento: 15.06.1932

Dados de localização

Local: Abrolhos
UF: BA
País: Brasil
Posição: Recife acima do farol dos Abrolhos
Latitude: 17° 51′ 823 sul
Longitude: 038° 59′ 689 oeste
Profundidade mínima: 14 metros
Profundidade máxima: 27 metros
Condições atuais: desmantelado

Dados técnicos

Nacionalidade: grega
Ano de fabricação: 1901
Estaleiro: Russell Company em Glasgow
Armador: Diamantis Falangas, Andros – Grécia
Deslocamento: 3.587 toneladas
Comprimento: 103,3 metros
Boca: 12,5 metros
Tipo de embarcação: cargueiro
Material do casco: aço
Carga: sal
Propulsão: vapor
Motivo do afundamento: choque com os recifes

O naufrágio

O cargueiro Artemis pertencia à linha Antuérpia / Buenos Aires e partiu no dia 25 de maio de 1932 do porto de Torre Viega na Espanha em direção a Buenos Aires, sob o comando do capitão Demos Kolalsis e uma tripulação de 25 pessoas transportando uma carga de sal.
A viagem correu normalmente até que na madrugada do dia 15 de junho, um vento fortíssimo associado a mar grosso e forte cerração tirou o cargueiro de sua rota e dificultou seriamente a marcha do navio.
Às três horas da madrugada foi avistado, ainda que mal, o farol dos Abrolhos, porém uma hora depois o nevoeiro era tão forte que o farol não era mais visto e foi determinada a diminuição da velocidade.
Três horas depois, as 7h20 da manhã foi subitamente sentido um choque violento e pareceu que todo o navio se quebrava. O Artemis estava trepado em um recife dos Abrolhos na posição de latitude de 17º 54,5′ sul e longitude 38º e 40,5′ oeste (posição passada pelo Eastern Prince – navio que prestou socorro), a cerca de três milhas do farol dos Abrolhos.
Foram momentos terríveis, todos corriam para executar as ordens do comandante Kolalsis, que tinham como função verificar a extensão dos danos. Logo se percebeu que os estragos eram terríveis, a situação do barco perigosíssima e com impossibilidade de salvar o navio. O Arthemis estava condenado a submergir.
O comandante ordenou a emissão do S.O.S. informando a posição do Artemis. Ficando todos a espera de um navio que viesse em sua salvação. A transmissão foi captada pelas estações telegráficas do Arpoador no Rio de Janeiro e Amaralina em Salvador e pelo paquete da empresa Furness Prince Line. O Eastern Prince, desviando sua rota em cerca de 120 milhas, partiu imediatamente em socorro do vapor grego.
Como o navio submergia rapidamente o comandante fez descer todos os escaleres, embarcando a tripulação e respectivas bagagens. Pouco antes do meio-dia os tripulantes do Artemis viram o Easthern Prince se aproximar.
Segundo o capitão Kolalsis do Artemis, a posição do acidente era 17º 56´ sul e 038º 40′ oeste, a cerca de 3 milhas de distância do farol de Abrolhos.
Segundo a declaração do capitão F. Marshall do vapor Easthern Prince:

“chegando ao local, já encontramos o cargueiro abandonado por sua tripulação que aguardava em escaleres. Paramos a cinco milhas distante, pouco mais ou menos, porque seria perigoso se aproximar mais. O primeiro oficial e marinheiros em um bote a motor, rebocou os escaleres para junto de meu navio”.

Cerca de 1h30 da tarde, quando todos os náufragos já estavam a bordo do Easthern Prince e o Artemis permanecia somente com a mastreação fora d´água, todos viram uma grande explosão, associada a explosão das caldeiras, que fez a água subir a uns 80 metros. O vapor abriu-se ao meio e desapareceu sob as águas. Só a tripulação foi salva.
Anoitecia no dia 17, quando o Eastern Prince, lançou ferros no ancoradouro dos navios mercantes da Baía de Guanabara no Rio de Janeiro, trazendo os náufragos do Artemis. As autoridades policiais foram apresentadas ao comandante e a todos os tripulantes, os quais, foram entregues aos funcionários da Inspetoria de Imigração e removidos para à Ilha das Flores, onde ficaram a disposição do cônsul grego.
O comandante Demos Kolalsis e o machinista seguiram para Buenos Aires e os demais tripulantes foram mantidos no Rio de Janeiro aguardando novas ordens.

Descrição

O Artemis está preso entre três grandes chapeirões, apoiado no fundo e com todo o seu costado de boreste já tombado para a areia. A proa está a 9 metros e a partir do 1º porão de proa até o 2º porão de popa os destroços estão adernados cerca de 45º. A popa está presa a outo chapeirão a uma profundidade de 27 metros.
O bico de proa está direcionada a 0º (norte) ainda com as buzinas e as duas  âncoras, do tipo Stockless passadas no escovém. As correntes descem dos escovéns até o fundo, onde está caído o guincho de proa, pois o convés de proa já desabou. O lado de boreste está encravado e contornando o recife onde o vapor bateu e todo o castelo de proa está partido e separado do resto do conjunto na altura do que seria o 1º porão.
   
A proa do Artemis está fortemente cravada no chapeirão, ainda com as âncoras, escovéns e correntes em sua posição natural
     
O lado de bombordo livre do chapeirão. O impacto com o chapeirão foi tão grande que moldou o costado de boreste da proa aos recifes


Logo atrás do primeiro porão está o que sobrou do mastro de proa, seus paus de carga e guinchos. Segue-se um casario central já bastante destruído. Boa parte do casco do lado de bombordo ainda está em posição estruturada, mas o casco do lado de boreste até o 2º porão de popa já está caído na areia.
Atrás do casario estão as três caldeiras. As duas principais (maiores) estão em sua posição natural, mas parcialmente cobertas pelo casco e uma caldeira auxiliar menor caída inclinada sobre as duas primeiras.
Logo encostado nas caldeiras, também parcialmente coberta pelo casco, está a máquina a vapor que foi confirmada como sendo do tipo de tripla expansão. Os cilindros de alta e média pressão só são possíveis de visualizar a partir do espaço entre as máquinas e as caldeiras.

Todo o costado de boreste está caído na areia e pouco sobrou do 1º e 2º porões e do mastro de proa

Duas caldeiras principais, estão com as fornalhas cobertas por destroços e a caldeira auxiliar, um pouco menor está caída sobre elas a 45º


As máquinas a vapor expõem muito bem o cilindro de baixa, mas os dois outros cilindros estão cobertos por destroços

Da casa de máquinas para a popa o Artemis está mais estruturado. Os porões estão vazios, as estivas abertas e próximo a elas estão os dois guinchos de carga e parte do mastro de popa. Seguindo-se me direção a popa junto a areia está uma linhas de malaguetas, que foi uma das evidências da identificação do navio como um veleiro em 2003 e a âncora reserva, com medidas iguais a do hélice principal.
A popa está caída de lado sobre boreste e podem ser vistos o volante do leme e no lado de bombordo do casco estão o leme e o hélice intactos, mas presos ao chapeirão.
Na seção final da popa existe uma região onde é possível uma penetração, pode ser vista uma escada que leva a escotilha de convés, mas, considerando o estado dos destroços, essa penetração não parece segura.
   
A estiva do 1º porão de popa, parte do mastro e um dos guinchos de carga. Sobre o convés a âncora reserva

 
A popa tombada para boreste, com visão do leme preso ao chapeirão e do volante do leme (direita). O grande hélice e o leme virado preso aos corais decretaram o fim do Artemis


Grupo de pesquisa
A equipe de pesquisa foi estruturada por 11 mergulhadores de São Paulo e do Rio de Janeiro com formação variada, todos com especialidade em Naufrágios e a maioria com formação em Pesquisa e Identificação de Naufrágios, alguns mergulhadores técnicos, instrutores e profissionais de TI.

Vários deles estiveram envolvidos na identificação do Tutoya, no litoral da Jureia em São Paulo.
Os mergulhadores Carla Pileggi e Octávio Contesini  não puderam ir a Abrolhos, mas permaneceram de terra dando apoio a equipe, fornecendo dados, mapas e outros elementos enviados a equipe de campo.
Conheça a equipe

     
Artur Ramos, Carolina Silva, Daniel Mantovanello, Denise Bentes e Iara Abe


Matteus Sorage, Maurício Carvalho, Octávio Pileggi e Carla Pileggi, Raul Ramos e Tatiana Mello 

Agradecimentos
Tripulação do Horizonte Aberto
Av. das Palmeiras 313, Centro
Caravelas – 
Bahia – Brasil
CEP: 45900-000
(WhatsApp)
(73) 98812-4678
horizonteaberto@yahoo.com.br
https://www.instagram.com/horizonteaberto/

 

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