GUADIANA (após 2026)

Sumário

Texto e fotos: Maurício Carvalho
Pesquisa:  Artur Ramos,
Carla Pileggi, Carolina Silva, Daniel Mantovanello, Denise Bentes, Iara Abe,
Matteus Sorage, Maurício Carvalho, Octávio Pileggi, Raul Ramos e Tatiana Mello
 

A identificação do “Guadiana” e a correção das identidades (resumo)

Conheça toda a pesquisa da identificação dos navios na página  Pesquisas de Abrolhos – Artemis e Guadiana

Em torno do ano de 2000 um novo naufrágio foi localizado nos Abrolhos; as informações que chegavam da região davam conta de ser um navio com cerca de 100 metros de comprimento e que apresentava caldeiras, mas não havia nenhuma identificação desse novo naufrágio.
Em 2003 fui a Abrolhos e assim que os mergulhos começaram, não precisou de muito tempo para me convencer da identidade do novo naufrágio; ele era o  Guadiana.

As fotos são de 2003, nas primeiras medições do naufrágio. Eu e o Instrutor Mário Garcia

Quais eram as evidências para a identificação:
– O comprimento do navio de 110 metros era compatível com o Guadiana;
– As máquinas a vapor, que pareciam de dupla expansão, embora parcialmente encobertas por destroços, eram compatíveis como as do Guadiana; os dois outros navios possíveis possuíam máquinas de tripla expansão.
– Havia linhas de malaguetas e sistemas de suporte da retranca no mastro de proa, que evidenciavam um navio com propulsão a vela além do vapor. O Guadiana era o único alvo com propulsão mista;
– O naufrágio estava firmemente encaixado em um chapeirão devido ao choque, com sua proa na direção norte. O que indicava uma rota de subida do litoral, como Guadiana.
Só o Guadiana correspondia a todos esses requisitos, assim a identificação foi realizada e o Guadiana se tonou um dos naufrágios mais conhecidos do Brasil.
Nas precárias condições de pesquisa de 2003 até a foto atribuída ao Guadiana estava errada, pois havia o Guadiana da companhia francesa Messageries Maritimes (ao lado) com dois mastros, que acabou produzindo uma avaliação técnica equivocada, mas agora todos os dados parecem corretos.

As novas pesquisas
Em 2024 a pesquisadora de naufrágios Tatiana Mello regressando de uma viagem a Abrolhos e trouxe a notícia que um pescador havia localizado um novo naufrágio no Parcel das Paredes e que havia sido localizada no naufrágio uma louça com o símbolo da companhia Royal Mail Steam Packet. Levando em conta que as informações eram verdadeiras.
O único naufrágio nessa região de um navio da companhia inglesa era o Guadiana. Assim, pensando na possibilidade de ter sido feita uma identificação errada, já que a 20 anos a quantidade de dados disponíveis era pequena, começamos uma pesquisa mais aprofundada. As novas informações conseguidas, começaram a mostrar que haviam incongruências nas identidades. Com muito mais informações e uma equipe de pesquisa, em fevereiro de 2026, fomos à Abrolhos e confirmamos as suspeitas de que os destroços conhecidos como “Guadiana” não poderiam ser deste navio e os destroços muito provavelmente seriam do navio grego Artemis.
Com isso o verdadeiro Guadiana estaria naufragado no Parcel das Paredes aguardando uma localização confiável.
Confira toda a pesquisa e os passos para a identificação no texto completo Pesquisas de Abrolhos.

A foto da louça, enviada para o Site Naufrágios do Brasil, com o emblema da companhia inglesa que teria sido encontrada no novo naufrágio. Não estivemos no naufrágio e também não vimos a louça pessoalmente, mas ela serviu de catalizador para a descoberta de novos dados técnicos e históricos importantes

Histórico

Este vapor misto foi construído em Govan nos estaleiros London & Glasgow Shipbuilding Company no rio Clyde em Glasgow na Escócia. Ainda durante a construção, foi comprado pela Royal Mail Steam Packet Co. uma das mais famosas companhias de navegação do mundo e que dominava as rotas para a América do Sul em meados do século XIX.
Lançado ao mar em 1875 foi batizado de Guadiana em homenagem a um dos principais rios da Península Ibérica, que serve de fronteira entre Portugal e Espanha.

Esse cargueiro de casco de ferro e linhas finas possuía 3 mastros e 3 decks. Apresentava 110 metros de comprimento, 12 metros de boca e 8,1 metros de calado, deslocando cerca de 2.503 toneladas. Estava equipado com duas caldeiras que abasteciam máquinas compostas de 2 cilindros invertidos de 400 hp movimentando uma hélice capaz de impulsionar o navio a até 10 nós.
Além da carga, tinha a capacidade para o transporte de 50 passageiros.
Estava registrado no porto de Glasgow, mas tinha sua base em Saint Thomas, nas Ilhas Virgens Britânicas no Caribe e era usado regularmente na linha entre a América do Norte e do Sul.

Características técnicas descritas no Lloyd’s Registers 

Dados básicos

Nome do navio: Guadiana
Data de afundamento: 20.06.1885

Dados de localização

Local: Abrolhos
UF: BA
País: Brasil
Posição: Parcel das Paredes
Latitude: 17º sul
Longitude: 038º oeste
Profundidade mínima: 15 metros
Profundidade máxima: 18 metros
Condições atuais: desmantelada

Dados técnicos

Nacionalidade: inglesa
Ano de fabricação: 1874
Estaleiro: London & Glasgow Ship. Co. (Glasgow – Inglaterra)
Armador: Royal Mail Steam Packet Company
Deslocamento: 2.503 toneladas
Comprimento: 100,15 metros
Boca: 12,9 metros
Tipo de embarcação: paquete
Material do casco: aço
Carga: 1.800 toneladas de café
Propulsão: vapor e velas
Motivo do afundamento: choque com os recifes

O naufrágio

No dia 13 de junho de 1885, o Guadiana deixou o porto de Santos sob o comando do experiente capitão Charles William Hanslip, há 22 anos na companhia e tripulado por 69 homens. Levava a bordo com uma carga de 1.800 toneladas de café e 45 passageiros, entre eles os membros da Câmara de Comércio Americana, retornando dos países do Prata, onde estudavam as condições do comércio americano na América do Sul, a fim de traçar um plano para seu desenvolvimento.
Escalou no Rio de Janeiro, onde recebeu mais carga e de onde partiu às 12 horas do dia 18 de julho com destino a Nova York e escalas previstas em Barbados e St. Thomas.
Às 18 horas foi dobrando o Cabo Frio, fazendo proa ao norte e cruzando entre 10 e 11 nós. No dia 19, o tempo estava nublado a ponto de não ser possível medir o meridiano, o que fez com que o capitão Hanslip mudasse o curso.  A nova rota faria o navio passar a 15 milhas por fora do farol dos Abrolhos, afastando-se do canal dos Abrolhos, entre o Parcel das Paredes e o Arquipélago onde está localizado o Farol dos Abrolhos.
Como não conseguia determinar a posição das estrelas, ao clarear o dia 20, o comandante Hanslip mandou aproximar o navio de terra. Às 5h15, o tempo já era claro e limpo e o mar estava calmo. O oficial-chefe mandou um tripulante a gávea para verificar a luz do farol. Como ela não era avistada, o oficial mediu a altura do sol, verificando um erro de 3 graus na navegação. O erro foi comunicado ao capitão, que porém, achou que havia um erro na leitura alterando a rota apenas 3 graus para leste.

Às 7 horas, sentiu-se um tremendo choque, o Guadiana bateu violentamente de proa com um cabeço de coral do Parcel das Paredes a 6 léguas da cidade de Caravellas. Os passageiros desorientados subiram ao convés com as roupas que usavam, encontrando o comandante e oficiais muito calmos dando diversas ordens aos marinheiros.
Depois do choque, o comandante deu toda força a ré, mas o navio tombou a boreste, assim, ordenou-se tocar toda a força a diante para restabelecer o equilíbrio, mas o navio não respondeu à manobra.
Percebeu-se que o navio estava cercado de chapeirões de coral e era impossível soltá-lo. Pouco depois o navio era declarado perdido.
O navio fazia água rapidamente e os passageiros, tripulantes, malas postais e algumas bagagens foram embarcadas nos oito escaleres que pairavam a pouca distância do Guadiana. Por volta de 13h30, o navio tinha submergido pouco a pouco e a inclinação do convés já era muito pronunciada quando o comandante Hanslip abandonou o navio. Quando a água acalmou apenas os mastros do Guadiana ficaram de fora.
Os oito botes salva-vidas seguiram na direção N.W. do rio Caravelas, BA. Pouco depois apareceram barcos de pesca (garoupeiras) para onde os escaleres se dirigiram. A narração dos fatos é baseada nos relatos feitos pelo médico espanhol Casimiro Roney, que residiu no Brasil por alguns anos estudando a febre amarela. Como o tempo ameaçava vento sul foi proposto aos pescadores conduzir os náufragos a Caravelas. Um dos barcos consentiu mediante o recebimento da soma de $ 200.000 (Contos).
O vento piorou, mas as vagas impeliam os barcos para a terra, onde chegaram às 7 horas da noite sob chuva torrencial, mas sem nenhuma vítima. Cansados e molhados encontraram condições muito difíceis na cidade ao sul da Bahia. No dia seguinte, passageiros e tripulantes seguiram a bordo do vapor Visconde Marinho e dois dias depois do naufrágio já estavam em Salvador.
Do navio, noticiou-se o salvamento apenas das bagagens dos tripulantes e passageiros, 4 escaleres, 4 lanchões, 2 panos (velas), 8 moitões, cabos e uma bandeira.
Depois de perder o Guadiana a Royal Steam Mail Packet Company fechou temporariamente sua linha para Buenos Aires, pois já havia sofrido em outros países diversas perdas nessa linha, como: O Amazon, Tweed, Isis e Forth. A rota foi considerada perigosa devido à precária sinalização e cartografia náutica. O capitão Hanslip foi condenado a três meses de suspensão da autorização de navegação pelo almirantado inglês.
Depois de perder esse vapor a Royal Steam Mail Packet Company fechou temporariamente sua linha para Buenos Aires, pois já havia sofrido em outros países diversas perdas nessa linha, como: O Amazon, Tweed, Isis e Forth.

Localização do Guadiana no Parcel das Paredes

Em fevereiro de 2026 ocorreram realizamos as primeiras buscas dos destroços informados como estando no Parcel das Paredes e que poderiam ser o Guadiana. As buscas ocorreram em torno da posição latitude 17º51’ sul e longitude 038º59’ oeste e latitude 17º53′ sul e longitude 038º59′ oeste, porém sem sucesso. Foi utilizado um Side Scan para a busca, porém, o local apresenta muitos recifes o que torna a navegação próximo ao Parcel muito difícil. As águas no Parcel das Paredes também não são muito claras, devido a influência das águas escuras do rio Caravelas, o que dificulta a localização visual.
 
Barra do rio Caravelas, com águas escuras que turvam um pouco a água no Parcel das Paredes. Mergulhadores na água (dois pontos) no parcel das paredes, as profundidades do parcel chegam a 2 metros de profundidade, o que mostra a dificuldade e perigo da navegação da região

Descrição

As informações passadas a nós por mergulhadores que informaram ter estado nos destroços em 2024 dão conta de que o navio está desmantelado caído sobre boreste, a popa está apoiada em um chapeirão e o navio está partido em vários pontos. Sua profundidade  varia em torno de 15 a 18 metros. A partir de um curto vídeo (não sabemos o autor para obter mais informações) enviado para o Site, foi possível verificar a existência de parte do casco na popa com sua murada, turcos, cabeços de amarração, guinchos, parte de mastros com seu cordame, caldeiras, as máquinas, possivelmente a chaminé, o volante do leme, o arco do hélice e o hélice de 4 pás.
 
Fotos extraídas do vídeo: o guincho de cabeça para baixo, turco a bombordo, volante do leme e o hélice de 4 pás

Pesquisas futuras

Caso o naufrágio seja localizado a confirmação da identidade do Guadiana passa obrigatoriamente por identificar as características técnicas do Guadiana, principalmente aquelas mais diferentes do padrão dos navios do período.
Leia a matéria completa sobre as Pesquisas de Abrolhos – Artemis e Guadiana.

O naufrágio sendo localizado, deve-se procurar identificar:
1 – A presença de caldeiras de abastecimento duplo (pelos duas extremidades – two double ended);
2 – A presença de três mastros;
3 – Detectar a existência de louças ou outros símbolos da companhia Royal Mail Steam Packet.

 

Grupo de pesquisa
A equipe de pesquisa foi estruturada por 11 mergulhadores de São Paulo e do Rio de Janeiro com formação variada, todos com especialidade em Naufrágios e a maioria com formação em Pesquisa e Identificação de Naufrágios, alguns mergulhadores técnicos, instrutores e profissionais de TI.

Vários deles estiveram envolvidos na identificação do Tutoya, no litoral da Jureia em São Paulo.
Os mergulhadores Carla Pileggi e Octávio Contesini  não puderam ir a Abrolhos, mas permaneceram de terra dando apoio a equipe, fornecendo dados, mapas e outros elementos enviados a equipe de campo.
Conheça a equipe

     
Artur Ramos, Carolina Silva, Daniel Mantovanello, Denise Bentes, Iara Abe


Matteus Sorage, Maurício Carvalho, Octávio Pileggi e Carla Pileggi, Raul Ramos, Tatiana Mello 

Agradecimentos
Tripulação do Horizonte Aberto
Av. das Palmeiras 313, Centro
Caravelas – 
Bahia – Brasil
CEP: 45900-000
(WhatsApp)
(73) 98812-4678
horizonteaberto@yahoo.com.br
https://www.instagram.com/horizonteaberto/

 

 

Informações
Demais informações técnicas em publicação futura e no SINAU


Para saber mais
Fim do mistério

 

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