Sumário
Naufrágio da Pedra que Ronca – Será o Postilhão da América?
Texto e fotos: László Mocsári

RESUMO
O presente artigo documenta com imagens e aponta a identificação do já conhecido naufrágio localizado junto à Pedra que Ronca, na praia de Itapuã, Salvador, Bahia, com mergulhos realizados em 2026. O sítio, em profundidade rasa (cerca de 2 a 4 metros), apresenta 39 canhões de ferro fundido (tipos corronada e colubrina), barras de ferro (iron pigs) como lastro, cinco âncoras (quatro próximas aos arrecifes e uma danificada junto aos canhões), fragmentos de chapa de cobre e porcelana. A análise compara os achados com registros em documentos históricos coloniais, identificando forte correspondência com o bergantim Correio Marítimo Postilhão da América, naufragado em 12 de maio de 1801 nos rochedos de Itapuã durante viagem de Lisboa para a Bahia. A quantidade elevada de canhões, que destoa de um bergantim da época, pode ser explicada pela utilização como lastro permanente, prática comum no final do século XVIII e início do XIX. A comparação da posição atual das âncoras é compatível com os relatos oficiais do encalhe. Hipóteses alternativas de registros de todos os encalhes na região, como os naufrágios do vapor D. Pedro II (1926, desencalhado em 1927) ou Comandante Miranda (1927, em outro local e de aço), são descartadas pela incompatibilidade tipológica e cronológica. Este estudo, embora amador, destaca a relevância do sítio para a história postal e naval luso-brasileira, recomendando, estudo histórico aprofundado e investigação arqueológica formal, além do monitoramento para preservação do patrimônio subaquático.
Palavras-chave: naufrágio; Pedra que Ronca; Postilhão da América; correio marítimo; construção naval Bahia.
ABSTRACT
This work documents, with images, and points to the identification of the already known shipwreck located near the Pedra que Ronca rock formation on Itapuã Beach, Salvador, Bahia, based on dives conducted in 2026. The site, in shallow depth (approximately 2 to 4 meters), features 39 cast-iron cannons (corronada and colubrina types), iron pig ballast bars, five anchors (four near the reefs and one damaged among the cannons), and fragments of copper sheet and porcelain. The analysis compares the findings with records from colonial historical documents, showing strong correspondence with the Portuguese mail brig Correio Marítimo Postilhão da América, which wrecked on May 12, 1801, on the Itapuã reefs during a voyage from Lisbon to Bahia. The high number of cannons, which deviates from what would be expected for a brig of the period, can be explained by their use as permanent ballast, a common practice in the late 18th and early 19th centuries. The comparison of the current position of the anchors is compatible with official accounts of the grounding. Alternative hypotheses from records of all strandings in the region, such as the steamship D. Pedro II (1826, refloated in 1827) or Comandante Miranda (1827, in a different location and of steel construction), are ruled out due to typological and chronological incompatibilities. This amateur study highlights the site’s relevance to Luso-Brazilian postal and naval history, recommending in-depth historical research and formal archaeological investigation, as well as monitoring for the preservation of underwater cultural heritage.
Keywords: shipwreck; Pedra que Ronca; Postilhão da América; maritime mail; naval history Bahia.

A “Pedra que Ronca” é uma lendária formação rochosa que fica na famosa praia de Itapuã (Salvador, Bahia), cantada em versos pelo poeta maior Vinícius de Moraes e Toquinho (tarde em Itapuã). Nome dado, pois supostamente emitia um som de ronco com a maré baixa, sendo um ícone cultural e ligado à toponímia do bairro (em Tupi ita = pedra, puã = ronco). Embora o renomado historiador Cid Teixeira aponta que o nome Itapuã significa “pedra de ponta” ou “pedra projetada”, e o som era das ondas nos recifes, um misto de lenda popular e fenômeno natural que celebra a identidade local.
Junto a esta pedra há um naufrágio, não se trata de uma descoberta recente, é um local frequentado por caçadores submarinos há muitos anos. Em abril de 1987, soube da existência deste naufrágio por intermédio de amigos mergulhadores, na ocasião fiz apenas um mergulho no qual tirei algumas fotos, talvez tenham sido as primeiras fotos já documentadas deste navio (figura 1). Desde então nunca soube de nenhum registro, nem tão pouco menção acerca deste naufrágio. Nesta época soube de um caçador submarino que, após um temporal, achou uma moeda portuguesa de 1800. Quase 40 anos após, em janeiro de 2026, retornei a este naufrágio com o intuito de tentar identificá-lo. Na manhã de 06.01.2026, fui a praia de Itapuã, estacionei o carro na rua da Música (antiga rua K) levei um equipamento leve de sidemont com apenas um cilindro pequeno, nadei de snorkel até a Pedra que Ronca e lá passei cerca de 3 horas procurando o naufrágio, pois após tanto tempo não me lembrava mais onde ficava. Já havia tentado ir há cerca de 2 meses antes, mas desisti, pois havia muitas ondas arrebentando no local. Trata-se de um local raso, com cerca 4 metros de profundidade na preamar, talvez na baixa mar algo em torno de 2 metros. O acesso não é fácil há muitas pedras rasas e arrebentação de ondas, portanto não é um local dos mais confortáveis para se mergulhar. O melhor é na preamar com vagas de ondas inferiores a 1 metro e com pouco vento. Pois bem, quando já estava desistindo de procurar achei o bendito naufrágio. Fiz uma documentação com vídeo e tentei contar o número de canhões, mas não foi fácil devido a grande quantidade deles amontoados.
Em 17.01.2026 fiz uma nova incursão, juntamente com fotógrafo submarino Roberto Costa Pinto, com o objetivo de tentar fazer um levantamento melhor e fazer algumas medições do que se pode entender que seja o sítio, porém as condições de mar não estavam favoráveis, com ondas arrebentando sobre nossas cabeças e nos jogando para lá e para cá. A presença de grande quantidade de algas, cobrindo e camuflando canhões e estruturas também dificultou a inspeção minuciosa do sítio. Uma terceira incursão foi feita em 07.02.2026, com ótimas condições de mar, desta vez com os mergulhadores Peter Tofte e Fagner Rodrigues que me auxiliaram na contagem e registro dos canhões, âncoras e outras estruturas, assim como, acidentes geográficos submarinos que poderão auxiliar a compreende o encalhe e consequente naufrágio.
Descrição do Sítio
O sítio deste naufrágio está localizado a cerca de 450 metros da praia em frente à colônia de pesca de Itapuã, e a exatos 70 metros e 28° da Pedra que Ronca (12° 57.608′ sul e 038° 21.447′ oeste).
Foram encontrados 39 canhões, todos de ferro fundido, alguns do tipo corronada e outros do tipo colubrina, além de alguns pedaços de canhão, outros com a boca partida e culatra estourada (figuras 2, 3, e 5). Estes canhões estão literalmente amontoados seguindo um certo alinhamento, assumindo um formato elíptico medindo 14 × 4 metros, e o seu maior eixo aponta para os 65° (em direção à terra) (figuras 4 e 6). Para fins de localização, convenciona-se que há uma extremidade da elipse que aponta para a terra e outra que aponta para o mar. Em ambas as extremidades há um rochedo proeminente (rochedo de terra e rochedo de mar). Há canhões juntos uns dos outros apontando para sentidos opostos.


Figura 2, 3 e 5 – pilha de canhões

Seguindo em direção aos arrecifes (155°), a aproximadamente 20 metros, encontram-se 4 âncoras: 3 juntas e uma separada por cerca de 5 metros, que está em posição unhada com a haste voltada para os arrecifes. Das 3 que estão juntas, uma delas (grande) está em posição de unhar e as outras duas estão deitadas sobre o solo (uma pequena e uma grande). As âncoras deitadas (grande e pequena) estão com a haste também voltada para os arrecifes. Estas 4 âncoras estão sem o cepo (figuras 21 a 25). Estas âncoras estão em uma profundidade de 2 metros. Em meio a estas 3 âncoras juntas, há estruturas que são moldes calcários do que um dia foram cabos de cânhamo. Dois metros além destas âncoras, em direção aos arrecifes, a profundidade torna-se muito rasa, com cerca de 1,5 metros, que dista do arrecife aflorado por cerca de 15 metros.
Figura 4. Croquis ilustrativo

Figura 7. Navio D Pedro II no Porto de Montevidéu em 1941, depois que esse navio desembarcou um grupo de refugiados de guerra vindos da Europa no Uruguai (NOVO MILÊNIO)
Figura 6. Croquis do sítio, próximo da realidade
Que navio poderia ser?
Segundo o Professor José Góes de Araújo, no seu livro Naufrágios e Afundamentos na Costa Brasileira (ARAÚJO, 2008), ele lista, com localização real e aproximada, 110 naufrágios na costa baiana e apenas um deles está nos rochedos de Itapuã, que é o Correio Marítimo Postilhão da América.
Segundo o IPHAN, há dois naufrágios nesta localidade: o Postilhão da América, cuja localização está exatamente de acordo com este naufrágio em questão (12° 57.608′ sul e 038° 21.447′ oeste ), e outro que seria o D. Pedro II, um paquete que encalhou em 1926 (e não 1927) em frente ao farol de Itapuã (IPHAN) (figura 7).
O D. Pedro II era um navio movido a vapor do Lloyd Brasileiro que, segundo depoimento de passageiros, mesmo antes de chegar a Salvador já seguia adernado e, segundo a guarnição, o navio vinha fazendo água. Mesmo assim, levantou âncoras às 17 horas do dia 19.11.1926, do porto de Salvador com destino a Recife e portos do norte. Por volta das 18h30, foi de encontro a rochedos submersos após o Farol de Itapuã, a cerca de 200 m da praia (A CAPITAL, 1926). Segundo Maurício Carvalho, ele levava 64 passageiros e 4 membros da tripulação morreram. O comandante estava embriagado, não tomou nenhuma providência e acabou dormindo na praia nesta mesma noite. Inicialmente foi dado como perdido, mas no final de janeiro de 1927 ele foi desencalhado pelo Lloyd Brasileiro (DIÁRIO DE PERNAMBUCO, 1927). Fazia a linha da Europa e depois passou para a navegação de cabotagem. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, auxiliou no retorno para o Brasil de integrantes da FEB – Força Expedicionária Brasileira (NOVO MILÊNIO).
Neste mesmo mês e ano (janeiro de 1927), ainda quando a Lloyd estava nos trabalhos de desencalhar o D. Pedro II, houve outro encalhe nas proximidades: outro navio do Lloyd, o Comandante Miranda. Este encalhe ocorreu no dia 08.01.1927, mais ao norte do que o D. Pedro II, em localidade que na época era conhecida como Santo Amaro do Ypiranga, na posição 12° 52’ sul e 038° 17’ oeste, informação do último rádio (A CAPITAL, 1927). Esta posição fica pouco antes da foz do rio Joanes, algo entre 5 e 6 milhas náuticas ao norte de Itapuã, hoje praia de Vilas do Atlântico. Não houve vítimas, o comandante e o Lloyd Brasileiro atuaram de imediato socorrendo os passageiros e resgatando suas bagagens (A CAPITAL, 1927). Segundo Maurício Carvalho (contato pessoal), o Comandante Miranda também foi desencalhado, sendo rebocado pelo rebocador Comandante Dart e pelo vapor Uçá ambos da Lloyd.
Há muitos anos o mar de Itapuã vem sendo explorado por mergulhadores e caçadores submarinos e, até o momento, há localizado próximo à costa apenas o naufrágio da Pedra que Ronca, no qual há a presença de canhões que denota ser um navio anterior à segunda metade do século XIX, o que estaria em acordo com o Postilhão da América.
O Postilhão da América
A palavra postilhão tem origem no italiano postiglione que era o profissional que montava um dos cavalos da frente da parelha (geralmente o da esquerda) para guiar a carruagem ou diligência; transportava correspondências urgentes a cavalo e anunciava a chegada da mala postal (muitas vezes tocando corneta) (Moraes, 1955). O Postilhão da América foi um dos navios que compunha a frota de navios postais da Coroa Portuguesa que ligava o Reino com a América Portuguesa entre o final do século XVIII e início do século XIX (figura 8) (GUAPINDAIA, 2017 e SALVINO 2018).
Figura 8. Réplica em miniatura (1:50) do Correio Marítimo Postilhão da América feito por Kelvin Rothier, exposta no Museu dos Correios em Brasília Foto: Dulcemar Fortes
Contexto Histórico
No final do século XVIII, o sistema postal português era dominado pela família Gomes da Mata, que detinha o ofício de Correio-Mor do Reino e dos domínios ultramarinos por quase 200 anos, desde o reinado de Filipe II de Portugal que em 1606 vendeu a concessão para o comerciante Luís Gomes por 70.000 cruzados (FAMÍLIA GOMES DA MATA, s.d.). Esse monopólio permitia vias informais de envio de cartas, sem cobrança de impostos, o que prejudicava os cofres da Coroa (GUAPINDAIA, 2017).
Em 1797, pela iniciativa de D. Rodrigo de Sousa Coutinho (futuro Conde de Linhares), então Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos (1796-1801) no reinado de D. Maria I, conduziu as reformas que levaram à criação oficial do Correio Marítimo em 16 de março de 1797 (ou 18 de janeiro em algumas fontes). Foi então, publicado o decreto que extinguiu o ofício de Correio-mor e estatizou o serviço postal.
Em 20 de janeiro de 1798, o Alvará de criação do Correio Marítimo estabeleceu oficialmente o serviço regular entre Portugal, as ilhas e a América Portuguesa (incluindo o Brasil), com navios-paquetes dedicados ao transporte de correspondências. Diferente do anterior, este serviço gerava receita via porte e todas as correspondências particulares deviam passar pela administração postal, ser enviadas em malas lacradas e transportadas por navios oficiais ou subordinados ao sistema (SALVINO, 2023).
Os navios que compunham a frota dos correios marítimos eram de porte médio-pequeno com arqueação entre 120 a 300 toneladas, a vela, com dois mastros do tipo bergantins ou brigs que também eram chamados de paquetes (GUAPINDAIA, 2017; MACHADO, 2015). Eram velozes, com bom desempenho em travessia atlântica com velocidades entre 7 e 10 nós em boas condições, em viagens Lisboa–Salvador que durava entre 40 e 127 dias (média de 76 dias), dependendo de ventos e rota. Eram dotadas de 4 a 20 peças de artilharia (canhões de 4 a 12 libras), que eram suficientes para defesa contra corsários ou piratas, mas não para combate naval formal. A tripulação era composta entre 20 e 50 homens, dependendo do tamanho (SALVINO 2018).
Foram construídas em Portugal (Ribeira das Naus ou estaleiros menores em Lisboa, Belém e Alcântara), no Brasil (Recife, Salvador e Rio de Janeiro) e comprados no exterior. Eram construídos em madeira como carvalho, pinho do norte (Europa) e madeiras tropicais (Brasil), com o casco de revestido de cobre (anti-incrustação) (SALVINO 2018).

Além da mala postal (caixas seladas de correspondência oficial), transportavam alguma carga comercial leve, passageiros de importância (oficiais, clérigos, administradores) e provisões (SALVINO, 2023).
No total, 26 paquetes foram identificados entre 1797 e 1822. A vida média de um paquete era de cerca de 8 anos, limitada por desafios como condições geográficas (ventos, correntes), temporais (atrasos sazonais) e de segurança (guerras napoleônicas, corsários franceses) (GUAPINDAIA, 2017).
O período foi marcado por instabilidades no serviço postal: entre 1797 e 1807, 6 paquetes foram capturados por corsários franceses; em 1801, houve o pico de perdas (5 navios) entre eles o Postilhão da América (GUAPINDAIA, 2017).
O Alvará de 20 de janeiro de 1797, previa duas rotas para os correios postais, uma Setentrional (ao norte) que partia de Lisboa para os portos de Recife, Paraíba, Maranhão, Salina e retorno a Lisboa e a rota Meridional (ao sul) que partia de Lisboa para a Bahia, Rio de Janeiro, Bahia e retornava para Lisboa. Os paquetes partiam de Lisboa em duplas, um para cada destino, sendo que os primeiros a inaugurar esta rota foram a Paquete Real (rota norte) e o Vigilante (rota sul), ambos saíram em 01.03.1798. Apesar do Postilhão ter sido construído na Bahia, foi levado a Portugal para que em Lisboa fosse integrado a frota, no qual juntamente com o Olinda fez parte da a quinta dupla a partir para o Brasil. Em 10.12.1798 a dupla partiu em sua primeira viagem oficial, sendo que o Postilhão era o da rota sul e o Olinda o da norte. Esta dupla fez mais duas viagens, uma partindo de Lisboa em 17.03.1800 e a última que saiu de Lisboa em 03.03.1801, na qual o Postilhão veio até naufragar na Bahia em 12.05.1801 (SALVINO, 2023).
Essa estrutura convivia com rivais: navios mercantes transportavam cartas informalmente, evitando taxas, o que minava a centralização. A Coroa investiu em fiscalização nos portos, mas a eficácia foi limitada, como mostram exemplos de comerciantes que preferiam vias paralelas (GUAPINDAIA, 2017). O contexto reflete a tentativa de manter a coesão imperial em um Império Atlântico ameaçado por guerras e independências (culminando na de 1822).
Construção Naval na Bahia
A construção naval na Bahia iniciou-se com a chegada de Tomé de Souza em 1549, primeiro governador-geral do Brasil, que fundou Salvador, a primeira capital do Brasil. Ele trouxe artífices especializados de Portugal (mestre construtor, carpinteiros, calafates e ferreiro) para fundar um estaleiro inicial em Salvador, focado em reparos e construção de pequenas embarcações, aproveitando a abundante madeira local (MARINHA DO BRASIL, s.d.; MESQUITA, 2018).
No final do século XVI (governo de Francisco de Souza, 1590-1602), o estaleiro foi formalmente organizado como Ribeira das Naus (em homenagem ao de Lisboa), tornando-se o principal centro naval da colônia. Produziu dezenas de navios, inclusive grandes naus e galeões de guerra (até 800-1.000 toneladas), beneficiando-se de padronizações da Junta das Fábricas da Ribeira lisboeta (MARCOLIN, 2011; MARINHA DO BRASIL, s.d.).
Durante os séculos XVII e XVIII, a Ribeira das Naus consolidou-se como o mais importante estaleiro do Brasil colonial, construindo embarcações para a Coroa, defesa contra invasores (holandeses, franceses) e comércio (açúcar, tabaco, pau-brasil). Enfrentou dificuldades como concorrência com a indústria açucareira por mão de obra, mas cresceu rapidamente (FONSECA, 2020; MILLER, 1978).
Em 1770, o estaleiro foi reformado e rebatizado como Arsenal de Marinha da Bahia (ou Arsenal Real da Marinha de São Salvador), localizado na Cidade Baixa, em frente à Igreja da Conceição da Praia (figura 9). Permaneceu o mais relevante da colônia até o início do século XIX, superando outros arsenais criados após 1760 (como o do Rio de Janeiro em 1763) (FUMTRAN, s.d.; ARQUIVO NACIONAL, s.d.).
Até o início do século XIX, a Bahia destacou-se pela qualidade das madeiras que produzia navios robustos, de porte médio a grande, contribuindo para a Marinha portuguesa e o comércio atlântico (MILLER, 1978).
Entre navios famosos produzidos na Ribeira das Naus de Salvador destacam-se:
Nossa Senhora da Conceição (1686-1699) — Nau (ou galeão) construída por Amaro Gomes Morim. Conhecida como “Conceição Grande”, era uma das maiores da época que arqueava entre 600 e 800 toneladas e serviu na Armada Real Portuguesa (PEREIRA, 2012).
São João de Deus (1691-1706) — Outra nau de guerra construída por Amaro Gomes Morim, com arqueação estimada em torno de 600 a 700 toneladas, destacada por sua robustez e participação em frotas atlânticas (PEREIRA, 2012).
Nossa Senhora da Estrela (1694-1722) — Nau de grande porte, também de Amaro Gomes Morim, com arqueação aproximada de 700 a 800 toneladas, destinada à Junta do Comércio do Brasil. Foi uma das mais importantes para o comércio colonial (PEREIRA, 2012).
Santo António e São José (1763) — Nau de linha de 64 peças de artilharia, construída por António da Silva Araújo, com arqueação registrada de 1.400 toneladas. Um dos navios de guerra mais poderosos da marinha portuguesa na época, exemplificando o auge da construção naval baiana no século XVIII (SALDANHA, 2020).
Príncipe do Brasil (final do século XVIII) — Nau de guerra construída por Manuel da Costa com arqueação estimada em 1.200 a 1.400 toneladas, típica das naus de linha com 74 peças de artilharia. Integrou a esquadra que trouxe a família real portuguesa ao Brasil em 1808, sendo um dos últimos grandes navios produzidos na Ribeira das Naus antes da transferência do foco para o Rio de Janeiro (SALGADO, 2021).
Com a transferência da corte para o Rio em 1808 e a independência em 1822, o foco naval migrou gradualmente para o sul, mas o Arsenal baiano manteve importância até meados do século XIX (FUMTRAN, s.d.; FONSECA, 2020).
Com a implementação dos Correio Marítimo pela Coroa portuguesa, o Arsenal de Marinha da Bahia, até onde se sabe produziu 3 navios que compuseram esta frota. O primeiro deles foi o Postilhão da América (1797 -1798), o Minerva (?) e o Afra (1820 – 1822) (CÂMARA, 1994).
O Navio Postilhão da América

O Postilhão da América exemplifica os desafios e a importância dos correios marítimos oficiais. Construído na Ribeira das Naus de Salvador por ordem do governador-geral Fernando José de Portugal e Castro, em 1797, no início das reformas dos correios (GUAPINDAIA, 2017; CLUBE FILATÉLICO DO BRASIL, 2012), era um bergantim de médio porte, com arqueação estimada em torno de 200-300 toneladas, projetado para rotas rápidas entre Lisboa e portos brasileiros como Rio de Janeiro e Bahia (ESPARTEIRO, 1976; PEREIRA, 2012).
O Postilhão era dotado, na sua construção, de 18 peças de artilharia, sendo 16 peças de 12 libras e 2 peças de 6 libras, com 90 a 125 homens a bordo. Foi construído para o serviço de correio marítimo (ESPARTEIRO, 1976; PEREIRA, 2012).
Atuou ativamente nos anos iniciais, transportando não só cartas particulares e oficiais, mas também materiais impressos e notícias estratégicas, destacando seu papel na comunicação política e comercial (GUAPINDAIA, 2019; SALVINO, 2023).
Em fevereiro de 1799, vindo do Rio de Janeiro para a Bahia, foi capturado temporariamente por corsários franceses perto de Cabo Frio. O capitão, com astúcia, enviou a mala de cartas para terra em um escaler, salvando-a integralmente (GUAPINDAIA, 2017). Isso preservou documentos valiosos, incluindo edições do periódico Mercúrio Britânico enviadas pela Coroa para venda nas capitanias, reforçando a prioridade da correspondência em tempos de conflito (GUAPINDAIA, 2017; CLUBE FILATÉLICO DO BRASIL, 2012).
Dados básicos
Dados de localização
Dados técnicos
A Última Viagem – baseado no pedido de investigação do comandante
Em 3 de março de 1801, o bergantim Correio Marítimo Postilhão da América partiu de Portugal para a sua viagem final para o Brasil sob o comando do 1º Tenente de Mar André Jacob. Na noite do dia 11 de maio, o comandante reforçou a recomendação ao oficial de quarto: se avistasse terra, era para comunicar imediatamente ao oficial de serviço. No dia seguinte (12.05.1801), há exatos 40 dias após ter deixado Lisboa, por volta das 4 h e 30 min da manhã (ainda escuro), foi avistada terra, sendo mensurada a profundidade de 25 braças; o vento era de tal qualidade que o navio, aberto por bombordo, aproava para a entrada do porto de destino, ainda que navegando com “cotelos longos” (velas utilizadas em condições de ventos fracos). Mais tarde avistaram jangadas; o comandante ordenou que um jangadeiro subisse a bordo para que servisse como prático. Entre uma e duas horas da tarde houve um “pequeno aguaceiro” com redução do vento, que durou apenas minutos, em seguida voltando à sua antiga posição, fazendo o navio aproar em rumo ao seu destino. Neste momento o prático tornou a aproximar da terra, pois a entrada do porto parecia estar à vista.
Entre as 3 e 4 da tarde o vento ficou muito fraco (bonança), e avistaram arrecifes muito próximos à frente, tanto que o prático tentou guinar o navio por duas vezes para bombordo; porém, devido ao vento fraco, o navio não respondia à manobra. Vendo o perigo se aproximando, o mestre ordenou que se descesse o escaler da popa com alguns marinheiros para que se tentasse empurrar o navio para uma posição segura.
Neste momento houve um desentendimento entre o mestre e o comandante, criando um tumulto na tripulação ao ponto dos marinheiros que estavam no escaler abandonarem o navio e remarem em direção à terra, apesar do comandante ordenar que regressassem.
Devido ao choque iminente contra os arrecifes, na tentativa de evitar a colisão, o comandante ordenou que fosse lançada uma âncora. Manobras de velas foram tentadas para tentar melhorar o posicionamento; em dado momento o comandante ordenou que cortassem as amarras, que foram cortadas tardiamente, ficando o navio ao sabor dos ventos. Ainda diante do conflito com a tripulação, foi ordenado que se jogasse outra âncora e, sem mais o que fazer, o navio bateu nas pedras apesar da segunda âncora ter unhado tardiamente. Precipitadamente, com intuito de desencalhar o navio, marinheiros lançaram-se ao mar, sendo que um deles se afogou.
Depois do navio se estabilizar pela segunda âncora, apesar de já ter perdido o leme, o comandante ordenou que se descesse o segundo escaler, ainda na esperança de desencalhar o navio. Apesar da insistência do comandante em contornar a situação, muito embora a situação fosse irreversível, a tripulação abandonou o navio, mesmo com as ameaças e persuasão por parte do comandante, ficando a bordo apenas o comandante com cinco pessoas, incluindo o padre capelão, o mestre e o guardião. Mesmo com pouca gente, havia uma remota possibilidade de o navio livrar-se do encalhe. Uma vez que o navio enchera-se d’água, dois dos tripulantes desembarcaram; o comandante permaneceu no navio “prevenindo os descaminhos do que o mar arrojava”.
No dia 14, estando o comandante a bordo, consciente de que o navio estava perdido, passou a separar o que se podia aproveitar; o mestre voltou a bordo informando que a tripulação havia desertado e se dispersado (AHU1, 1801).

No ofício de 19.06.1801, do Intendente da Marinha da Bahia José Francisco de Perné para o Presidente do Real Erário (Ministro da Fazenda) D. Rodrigo de Souza Coutinho
Escreveu com suas palavras: “Tanto que nesta notícia lida tive notícia deste infeliz sucesso (do naufrágio do Postilhão) dei logo a providência, que logo exigia. Fiz aprontar imediatamente um barco e uma lancha equipada de remos: neles introduzi todos os gêneros que me pareceram próprios para salvar uma embarcação encalhada: fiz embarcar carpinteiros, calafates, o Patrão mor e um guardas de madeiras; dei-lhes mantimentos e até dinheiro para que nada faltasse a um serviço tão importante; Concorre para que estas embarcações saíssem prontas em duas horas e meia; mas chegando elas ao lugar do naufrágio, acharam o Correio em estado de se não poder salvar pelo acharem encalhado sobre as pedras onde logo se arrobou e encheu de água, podendo-se aproveitar apenas alguns gêneros pela maior parte inúteis, que o mar arrojava as praias, dos quais tenho feito arrecadação nestes armazéns, transpor todos nas referidas embarcações e mais dois barcos que mandei ao mesmo fim: e depois que se salvar o resto da artilharia, âncoras, ferragem que se acha ainda naquele fundo, por se não poder tirar no presente tempo de inverno, tendo de tudo feito a devida arrecadação mandarei extrair o competente conhecimento em forma da receita, que se houver de fazer as Almoxarife deste Arsenal para o remeter a Real Junta da Fazenda da Marinha onde será presente a Vossa Excelência.” (AHU4, 1801)
Segundo o Ofício de 18.06.1801 do Governador da Bahia D. Fernando José de Portugal para Presidente do Real Erário D. Rodrigo de Souza, é dito nas palavras do governador que: “…por estar encalhado em um recife de pedras em costa braba, apesar dos socorros que prontamente de prestarão aproveitando-se meramente alguns artigos e este 5 peças de artilharia, esperando que no verão, seguinte se possa tirar outras cinco que ainda restam e duas âncoras.” (AHU3, 1801).
O comandante André Jacob depois de 11 dias a bordo do Postilhão encalhado, ficou doente e se viu obrigado a desembarcar e ir a Salvador, deixando a bordo o escrivão e o mestre encarregado (AHU1, 1801).
O Malote das Cartas
O malote de cartas, que era de vital importância, tão logo o navio encalhou, foi encaminhado a terra e em seguida a Salvador. Nele havia uma notícia de vital importância ao Governador da Bahia e do Rio, a Corte de Espanha havia declarado guerra à Coroa Portuguesa. Tão logo o governador recebeu esta notícia, tratou de divulgá-la, fixando editais nos lugares mais públicos e enviando-a o mais rápido possível para o Rio de Janeiro através de outro navio.
No ofício de 15.06.1801, o governador da Bahia escreve sobre a intenção de convocar todos os imigrantes espanhóis da capital para serem extraditados ao Rio Grande de São Pedro do Sul, para de lá passarem para possessões espanholas (AHU3, 1801).
O Postilhão da América ilustra as vulnerabilidades da frota: perdas por corsários e naufrágios eram comuns, mas o foco no resgate das cartas garantia a continuidade comunicativa. Seu fim em 1801 irá refletir mais tarde no declínio geral dos paquetes iniciais, muitos redirecionados para missões bélicas ou substituídos por navios mercantes subordinados. Como um dos poucos exemplos detalhados no artigo, simboliza a ambição e as limitações das reformas postais em manter laços transatlânticos regulares.
Geografia do local do encalhe

Pela descrição dos documentos históricos, ele encalhou nos rochedos de Itapuã (figuras 11 e 12).
Na época do naufrágio (1801), Itapuã era praticamente desabitada; havia uma pequena vila de pescadores que se dedicavam, entre outras atividades, à pesca de baleia.
A praia de Itapuã é repleta de rochedos junto à praia; porém, ela forma uma proeminência do continente que se projeta ao mar. Nesta proeminência há um banco de corais que, por sua vez, se projeta por mais 500 metros mar adentro e, na sua extremidade, há a famosa Pedra que Ronca, que é um acidente geográfico propenso a acidentes, tanto que o Farol de Itapuã surgiu tempos depois, em 1873, para oferecer segurança à navegação nesta localidade.
Pontos de convergência entre naufrágio da Pedra que Ronca e o Postilhão da América
- Localização
O primeiro e principal ponto de convergência é a localização relatada nos ofícios da época: “Rochedos de Itapuã”. O IPHAN relata posição exata deste naufrágio com a do Postilhão, apesar de não se conseguir localizar a fonte desta informação.
- Profundidade
Profundidade compatível com encalhe, entre 1,5 e 4 metros de lâmina d’água.
- Presença de Canhões
O terceiro seria a presença de canhões era quase universal até 1860: 90–95% dos veleiros de longo curso saíam armados com 4–12 canhões, de que de nota uma embarcação anterior a segunda metade do século XIX.
No entanto há pontos de divergência que podem ser explicados: como dito linhas acima, em algum momento ele foi dotado de 18 peças de artilharia (MARINHA DE GUERRA PORTUGUESA, 2013), porém no momento de naufrágio, segundo a carta do Governador da Bahia, durante o encalhe, foram resgatadas 5 peças e devido as condições de mar, foram deixadas mais 5 para serem resgatadas no verão seguinte. Não sabemos se estas 5 peças foram ou não resgatadas, assim como duas âncoras referidas na carta (AHU3, 1801). No sítio atual do naufrágio da Pedra que Ronca há 39 peças de artilharia e 5 âncoras (duas em posição de unhar e duas deitadas sobre o solo e uma danificada junto a pilha de canhões).
Figura 12. Foto colagem mostrando a distribuição dos canhões, âncoras, barras de ferro e outros artefatos em relação a geografia local. Em vermelho, os canhões do tipo corronada, em verde os do tipo colubrina, em amarelo os danificados, em lilás as âncoras, em lilás vivo a estrutura tubular, e em azul uma concreção. A quantidade e distribuição dos artefatos tenta ser o mais próximo da realidade
3.1. O que poderia explicar a diferença entre canhões descritos e achados no sítio?
Os canhões utilizados para armar os navios construídos no Estaleiro da Ribeira das Naus de Salvador, na Bahia, durante os séculos XVIII e XIX, eram predominantemente importados de Portugal. Não há evidências consistentes de produção local em escala significativa para artilharia naval nesse período na região, devido às políticas coloniais portuguesas que restringiam o desenvolvimento industrial no Brasil para manter a dependência da metrópole (FONSECA, 2020; LANDGRAF 2021). Materiais como ferro, bronze e componentes de artilharia eram enviados de arsenais em Lisboa (como o Arsenal Real do Exército ou fundições associadas) para equipar os navios diretamente no estaleiro baiano (PEREIRA, 2012).
Os navios não eram enviados desarmados para Portugal; o armamento ocorria localmente após a construção. Exemplos incluem a nau Príncipe do Brasil (construída entre 1797-1802, com 74 peças de artilharia) e outras como Santo António e São José (1763, 64 peças), que foram armadas no próprio Arsenal da Marinha da Bahia (SALGADO, 2021). Importações eram comuns para suprir deficiências locais, especialmente em períodos de escassez de mão de obra e materiais.
Portanto, o Postilhão da América poderia estar transportando canhões para armar outros navios em construção na Bahia, como o Príncipe do Brasil que estava em construção na época.
Canhões eram muito valiosos; é difícil acreditar que tantos canhões seriam deixados no mar, mesmo que este naufrágio não fosse o Postilhão. As Pedras de Itapuã são relativamente perto da Capital, e em qualquer tempo da colonização um naufrágio neste local dificilmente passaria despercebido, além de haver, mesmo no passado mais remoto, tecnologia para resgatar esses canhões.

Figura 13. Canhão danificado com projeção de ferro na lateral da culatra (culatra estourada)
Figura 15. Canhão sem a parte distal do cano
3.2. O uso de canhões como lastro
Era relativamente comum — especialmente nos séculos XVIII e XIX — usar canhões (normalmente antigos, obsoletos ou inutilizáveis) como forma de lastro permanente em navios, tanto de guerra quanto mercantes (Heritage & Education Centre, 2024; Model Ship World, 2019). Não era a prática mais frequente — o lastro clássico eram pedras do tipo seixo rolado, cascalho, areia ou, a partir do séc. XVIII cada vez mais, barras de ferro fundido chamadas “iron pigs” —, mas aparecia com certa regularidade, principalmente por razões práticas e econômicas (BURSTRÖM, 2025; NANTET E E MARTINS G, 2023). Neste naufrágio há entre os canhões e sobretudo nas extremidades da pilha de canhões, iron pigs de tamanhos diferentes, medindo em média 70 x 20 x 20 cm o que pesa aproximadamente 200 kg (figuras 16, 19 e 20), há também alguns com formas irregulares, difíceis de se distinguir devido a natureza rochosa do solo no local.
3.3. Por que usavam canhões como lastro?
Canhões velhos ou quebrados (com a alma desgastada, rachados ou de modelos obsoletos) tinham muito valor como sucata metálica, mas fundi-los novamente era caro e nem sempre viável e menos vantajoso do que produzir ferro novo a partir do minério. Ao ser refundido, não “melhorava” automaticamente — ao contrário, podia tornar-se mais frágil, incorporava impurezas adicionais do forno, pois não havia controle preciso de liga ou atmosfera, assim, a refundição não garantia qualidade previsível, algo crítico para os canhões, além de se consumir mais carvão se comparado com a extração do minério (Heritage & Education Centre, 2024). Em navios de guerra da Marinha Britânica, havia a prática de refundir canhões para usa-los como lastro melhor adaptado nos porões, mas isto não era prática comum nos navios mercantes devido ao elevado custo (NANTET E E MARTINS G, 2023).
Os canhões eram extremamente densos, ocupavam pouco volume para muito peso (ideal para lastro no fundo do porão, junto à quilha). Muitas marinhas e armadores consideravam isso uma forma inteligente de reutilizar material (reciclagem do século XVIII/XIX) (BURSTRÖM, 2025).
3.4. Casos documentados / achados arqueológicos
Muitos naufrágios do séc. XVIII e XIX têm lastro misto: pedras + pedaços de ferro + canhões quebrados ou bolas de canhão soltas. Navios da Companhia das Índias Orientais (tanto holandeses quanto britânicos) ocasionalmente usavam canhões antigos no fundo (Heritage & Education Centre, 2024). Achados no Mediterrâneo e no Atlântico Norte mostram frequentemente canhões de ferro usados como lastro em navios mercantes do final do séc. XVIII e início do XIX (Arqueologia Submarina – Saint-Malo Shipwrecks, s.d.). Mesmo em Salvador, no Banco da Panela (Próximo ao porto), segundo José Dortas, há um naufrágio com canhões acorrentados que provavelmente foram usados como lastro ou carga.

Figura 14. Canhão com a boca de fogo partida Figura 16. Barras de ferro (iron pigs) entre os canhões

Figura 17. Os “X” mostram pedaços de canhões Figura 18. Ancora com um dos braços partidos em meio aos canhões
3.5. É possível saber se estes canhões eram inutilizados?
No sítio do naufrágio Nossa Senhora do Rosário e Santo André, localizado na Praia da Boa Viagem em Salvador, há 4 canhões, sendo que dois deles estão visivelmente com a culatra estourada e, na ocasião do naufrágio, certamente foram deixados no mar em detrimento de muitos outros que foram removidos para serem reaproveitados como peças de artilharia. É possível que estes canhões danificados tenham sido usados como parte do lastro que era predominantemente de pedras.
A explosão da culatra era algo catastrófico pois matava e mutilava entre 15 e 20 marinheiros. Em média um canhão de ferro, que eram os mais comuns e baratos, tinha a vida útil em torno dos 100 a 500 tiros, porém havia critérios para inspecionar, testar e condenar (declarar fora de serviço) canhões antes que o risco de explosão da culatra (breech burst) ocorresse (QUORA, S.D.; REDDIT – ASKHISTORIANS, 2017). Estes eram: 1. Medição da espessura das paredes, um determinado afinamento das paredes ou aumento do diâmetro da alma poderia ser inaceitável; 2. “Proof test” com carga excessiva; 3. Inspeção visual: a presença de fissuras, corrosão interna ou da culatra; 4. Teste com água pressurizada para evidenciar fissuras e vazamentos; 5. Pesagem: a redução do peso do canhão também poderia condená-lo (NATIONAL PARK SERVICE, s.d.; AMERICAN REVOLUTION.ORG, s.d.).
Portanto, após mais de 200 anos submerso, com oxidação avançada, incrustações em um canhão, se torna praticamente impossível dizer se um canhão era condenado ou não com apenas uma inspeção visual, exceto se houver algum defeito bizarro. Neste naufrágio foi observado a presença de 8 canhões com defeitos: boca danificada, fragmentos de canhões e projeção de material na área de reforço próximo a culatra (figuras 13, 14, 15 e 17).
A hipótese de canhões como lastro é plausível pois canhões eram artigos muito valiosos, tanto quanto ouro, sobretudo aqui no Brasil, que até antes da vinda da família real não havia fundição de ferro. A Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema (em Sorocaba/SP), inaugurada em 1812, é considerada a primeira fundição do Brasil que produziu apenas 3 canhões em 1840 (OLIVEIRA, 2020). Portanto deixar 39 canhões em local de relativo fácil acesso, com tecnologia local capaz de retirá-los na época, certamente não seria uma opção. Isto explica a tamanha quantidade de canhões que não foram reaproveitados e deixados no naufrágio.
Outro aspecto que fala a favor de canhões como lastro é o amontoado de canhões concentrados em apenas um local, todos na mesma direção e a presença de canhões juntos em sentidos opostos, destoando de alinhamentos encontrados em muitos outros naufrágios que tendem a ficar lado a lado respeitando a ordem como estavam dispostos no costado. Exemplos que ilustram isto são as planigrafias dos naufrágios dos galeões Utrecht e do Santíssimo Sacramento, ambos em Salvador (ANDRADE 2011; CARVALHO, 2007). É bem verdade que em navios adernados os canhões podem também assumir um padrão desordenado em um naufrágio, mas dificilmente alinhados na mesma direção. Aliados a isto, entre os canhões, há aqueles 8 visivelmente danificados. Entremeado aos canhões há iron pigs além de uma âncora danificada que reforça a possibilidade de terem sido usados como lastro também.
A ausência de pilhas de pedras de lastro, que é muito comum em muitos naufrágios anteriores do século XIX como os encontrados nos Utrecht, Nossa Senhora do Rosário, Arembepe II, Sacramento, Santo André, entre outros, também fala a favor dos canhões como lastro, muito embora lastros de cascalho e areia, usados com menos frequência, não ficariam aparente, pois seriam incorporado pelo solo marinho.
Baseado na quantidade e tipo de canhões encontrados (média de peso de 700 Kg) no naufrágio estima-se que tenha em torno de 27 toneladas de peso total de canhões, além de 20 peças de iron pigs (200 kg cada), ou seja, um total de 30 toneladas, algo dentro do esperado para lastrear um bergantim da época que deslocava entre 200 e 300 toneladas que portava entre 10 e 20% da sua arqueação em lastro.
- Iron Pigs
Os iron pigs (ou iron pigs ballast, em português frequentemente chamados de lastro de ferro gusa, barras de ferro ou simplesmente lastro de ferro em pigs) começaram a ser utilizados como lastro permanente em embarcações no início do século XVIII pela Marinha Real Britânica (figuras 16, 19 e 20). Ela foi pioneira na substituição gradual de lastro de pedra, cascalho, areia, canhões velhos e balas de canhão por barras de ferro fundido (iron pigs) especialmente moldadas para esse fim (KING, 1995). A adoção mais consistente deu-se a partir das primeiras décadas do século XVIII, espalhando-se depois para outras marinhas europeias (França a partir de ~1759–1760, seguindo o modelo britânico) e para navios mercantes maiores ao longo dos séculos XVIII e XIX (NANTET e MARTINS, 2023).
A introdução dos iron pigs como lastro representou um avanço significativo na construção e operação naval. As principais vantagens em relação aos lastros anteriores (pedra, cascalho, areia, sucata de canhões) foram: maior densidade, pois ocupava muito menos volume para o mesmo peso, permitindo colocar mais carga útil no porão; formato padronizado e uniforme em barras retangulares (geralmente 91 cm × 15 cm × 15 cm), que facilitava o cálculo preciso do peso e do centro de gravidade; fácil manuseio e arrumação, pois podiam ser empilhados de forma estável e segura no fundo do porão, junto à quilha, com muito menos risco de deslocamento em mau tempo; permanência a bordo, pois, ao contrário do lastro de pedra/cascalho que era frequentemente trocado ou descartado nos portos, os pigs permaneciam fixos durante toda a vida útil do navio, simplificando operações e eliminando o trabalho pesado de carregar/descarregar toneladas de pedra nos portos; melhor estabilidade e segurança, contribuindo para reduzir o risco de emborcamento e melhorando o comportamento do navio em mar grosso (LLOYD’S REGISTER FOUNDATION, s.d.).
Figura 19 e 20. Iron pigs dispersos na extremidade de mar da pilha de lastros
Portugal acompanhou relativamente cedo as inovações britânicas e francesas, sobretudo por manter relações comerciais e técnicas próximas com a Inglaterra (o Tratado de Methuen de 1703 reforçou essa ligação) (GUEDES, 2021).
O uso de lastro de ferro gusa em pigs em navios portugueses (tanto de guerra como mercantes de grande porte) é documentado com alguma regularidade a partir da segunda metade do século XVIII (cerca de 1750–1780), tornando-se comum no final do século XVIII e início do XIX.
Em Lisboa, o lastro de ferro já era utilizado de forma habitual em navios da Marinha Real Portuguesa e em grandes naus mercantes da Carreira da Índia e do Brasil por volta do último quartel do século XVIII (1770–1800).
No início do século XIX, tornou-se padrão em quase todos os navios de maior porte que atracavam ou eram construídos/reparados em Lisboa.
No Arsenal da Marinha da Bahia, o uso de lastro de ferro gusa em pigs seguiu um padrão semelhante ao do restante do Império Português, mas com alguma defasagem em relação a Lisboa e ao Reino, devido à distância, à dependência de suprimentos metropolitanos e ao perfil da construção naval local. O início do uso em navios que passavam ou eram reparados no Arsenal da Bahia, ocorreu em meados da segunda metade do século XVIII (aproximadamente 1760–1780). A adoção sistemática deu-se no final do século XVIII e início do XIX (cerca de 1780–1820). Um exemplo foi a nau Príncipe do Brasil (final do século XVIII), que tinha lastro de iron pigs (LIGHT, 2003). A partir do reinado de D. Maria I e especialmente durante a transferência da Corte para o Rio (1808), quando houve a implantação de fundições no Brasil, como a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, em Sorocaba (1810), que produziu ferro-gusa. Não se tem documentado se esse ferro foi usado para lastrear navios, o que poderia ter impulsionado esta forma de lastro na indústria naval brasileira.
No início e meados do século XVIII predominava o lastro de pedra (pedra local ou trazida de Portugal), cascalho, areia e, em alguns casos, sucata de canhões velhos ou balas, prática ainda comum em embarcações menores e costeiras (NANTET, 2023).
A presença de lastro misto de canhões e iron pigs no naufrágio da Pedra que Ronca denota um período de transição na construção naval na Bahia, no qual embarcações de médio porte começaram a adotar formas de lastro mais modernas, já adotadas em navios maiores anos antes. Neste naufrágio são encontrados iron pigs entre os canhões e, sobretudo, nas extremidades da pilha de canhões, possivelmente por uma questão de melhor acomodação. A cronologia de lastros de canhões e iron pigs é compatível com um navio do final do século XVIII e início do XIX, encaixando-se, portanto, com a do Postilhão da América.
- Âncoras
No local, próximo aos arrecifes há 4 âncoras. Três estão juntas e outra separada por cerca de 5 metros de distância, que está em posição de unhar com a haste voltada para os arrecifes. As outras três estão juntas, uma na posição de unhar e as outras duas deitadas no solo com as hastes voltadas para os arrecifes. Junto a elas está está uma estrutura que parece um cepo parcialmente enterrado (figuras 21 à 25). Todas as âncoras estão sem cepo, inclusive que as que estão em posição de unhar. todas tem a extremidade das hastes com a secção quadrada, adequada para acomodar cepos de madeira isto indício que tinha cepos de madeira que foram consumidos pela vida marinha.
Na Idade Média e Renascimento (séc. XV–XVIII) o cepo de madeira era o tipo praticamente universal em navios europeus. Continuaram sendo o padrão em navios a vela e início dos navios a vapor (segunda metade do século XIX) (SOUTH STREET SEAPORT MUSEUM, 2021). A presença de um cepo de ferro denota um período de transição entre os de madeira e ferro, compatível cronologicamente com o Postilhão.
Outro ponto de convergência entre o sítio e o Postilhão é o posicionamento das âncoras, próximas aos arrecifes, e segundo o relato do comandante André Jacob, momentos antes do encalhe foram lançadas duas âncoras ao mar, para tentar conter o abalroamento com os arrecifes (AHU1, 1801). Uma das âncoras está unhadas no sentido oposto aos arrecifes e as outras duas deitadas também estão com suas hastes voltadas para os arrecifes. Isto sugere está em acordo com o descrito pelo comandante, que tenham sido lançadas ao mar com o intuito de parar a progressão do navio de encontro com os arrecifes. O local é muito raso, possivelmente no momento do encalhe a proa deveria estar chocando-se com o fundo ao sabor das ondas. Possivelmente, para aliviar o peso da proa todas as âncoras foram lançadas ao mar.
Figura 21. Âncora 1 em posição de unhar, sem o cepo (provavelmente era de madeira), com a haste voltada para os arrecifes
Figura 23. Âncora 2 em posição de unhar, sem o cepo
Figura 25. Molde calcário de cabo de cânhamo. Dois orifícios ao centro da figura comprovam que é oco
Figura 27. Chapa de cobre, certamente de revestimento do casco - Moldes calcários dos cabos de cânhamo
Neste naufrágio há uma estrutura que sugere conectar as âncoras à pilha de canhões. A primeira impressão é de que são correntes, mas na realidade são ocas. Nelas há fraturas e furos, que permitiram constatar que são ocas e, portanto, não se trata de correntes. Próximo à pilha de canhões e as âncoras há formações que sugerem um emaranhado de cabos. Há também um segmento linear de cerca de 5 metros que conecta parcialmente a pilha de canhões as âncoras (figuras 25, 26 e 28).
Uma hipótese plausível é que são moldes calcários dos cabos de cânhamo de ancoragem do navio.
Os cabos de cânhamo passavam por um tratamento químico para que tivessem maior durabilidade. O método mais comum e eficaz era o alcatroamento com alcatrão de pinho, um produto viscoso e escuro obtido da destilação da resina de pinheiros. Os cabos eram mergulhados em caldeirões com alcatrão quente ou aplicava-se in loco (a bordo do navio), pincelando ou passando o cabo por um recipiente com alcatrão diluído. Impermeabilizava as fibras, repelindo água do mar e chuva, protegia contra fungos, bactérias e podridão, além de aumentar a resistência à abrasão e ao sol.
Deixava o cabo mais flexível em alguns casos, mas escuro e ligeiramente pegajoso (LEVER, 1808 e STEEL, 1794).
Havia variações como o alcatrão misturado com óleo de linhaça fervido e terebintina em partes iguais — para melhor penetração e adesão.
Além do alcatrão usava-se óleos de peixe, baleia ou banha de porco (STEEL, 1794 e HARLAND, 1984).
Um cabo sem este tratamento durava entre 1 e 2 anos; com o tratamento, de 5 a 10 anos, e se bem mantido poderia chegar a 15 anos (LEVER, 1808 e STEEL, 1794).
Provavelmente o alcatroamento tenha retardado a deterioração destes cabos, ao ponto de haver tempo para a formação de uma capa calcária, que com o tempo, o cânhamo fora consumido pela vida marinha, restando apenas esta impressionante estrutura tubular.

Figura 26. Moldes calcários dos cabos de cânhamo – Figura 28. Emaranhado de moldes calcários

Figura 29. Fragmento de porcelana — Figura 30. Fragmento de porcelana
Como ocorre este processo?
Este é um processo tafonômico conhecido como concreção calcária (ou concreção marinha) em materiais orgânicos de naufrágios, que resulta em moldes negativos (ou impressões/cavidades) após a decomposição do material original (OXLEY, 1999).
Em naufrágios, materiais orgânicos como cabos de cânhamo, cordames de fibra vegetal, madeira, couro, tecidos ou até ossos são rapidamente colonizados por organismos marinhos (bactérias, algas, moluscos, briozoários, serpulídeos – verme poliqueta – etc.). Esses organismos depositam carbonato de cálcio (CaCO₃) na forma de conchas, tubos ou crostas calcárias (HAMILTON, 1999).

Formação da concreção
O ferro corroído (de pregos, ferragens ou lastro) ou outros metais liberam íons que aceleram a precipitação de carbonato de cálcio ao redor do objeto orgânico. Isso cria uma concreção dura que encapsula o material orgânico como uma “cápsula” calcária. A concreção pode incluir areia, conchas, fragmentos de coral e produtos de corrosão metálica, formando uma massa compacta (DODE, 2017).
Com o tempo, o material orgânico dentro da concreção se decompõe completamente devido à ação bacteriana anaeróbica e à falta de oxigênio. Restam apenas impressões ou cavidades no interior da concreção — os famosos moldes negativos (negative casts ou external molds). Esses moldes preservam detalhes finos da textura original, como a torção das fibras do cânhamo ou até marcas de nós e trançados (HAMILTON, 1999 e OXLEY, 1999).
Esse encapsulamento protege o material orgânico da degradação rápida, que normalmente ocorreria em poucos meses no mar aberto devido a teredos, limnorias (cracas) e oxigênio. É uma forma de preservação excepcional para orgânicos em ambientes marinhos.
Conservação arqueológica
A concreção é removida mecanicamente (com cuidado para não destruir o molde).
Se o orgânico já sumiu, o molde negativo é preenchido com silicone, resina epóxi ou poliuretano para criar uma réplica positiva. Isso permite estudar a tecnologia naval antiga (ex.: bitolas de cabos, tipos de nós) mesmo sem o material original (HAMILTON, 1999).
Escassez de peças metálicas
7. Durante os mergulhos não foram observados a presença de peças que comumente se encontram em naufrágios como este, tais como, dobradiças, peças de mastreação (resquícios das bigotas, anéis de reforço dos mastros), bomba d’água, a carga, entre outros itens. Isto sugere que tenham sido retiradas para reaproveitamento, em acordo com o ofício do Intendente da Marinha da Bahia para o Presidente do Real Erário de Portugal, na qual ele diz que os itens retirados do Postilhão foram entregues ao almoxarife do Arsenal da Marinha da Bahia (AHU2, 1801). A ausência destes itens colabora com a hipótese dos canhões terem sido usados como lastro, ou seja, por que foram retirados estes itens e deixado canhões?
Como deveria ter sido o encalhe?
As âncoras estão localizadas bem próximas ao arrecife, que distam cerca de 20 metros da pilha de canhões. Os canhões como lastro, provavelmente estariam dispostos paralelamente ao eixo longitudinal do navio. Pelo sentido predominante que os canhões estão dispostos no fundo, sugere que ele haveria se afastado dos arrecifes girado cerca 90 graus, talvez isto tenha sido decorrente das tentativas de desencalhe. Há duas pedras proeminentes, que podem ter limitado este giro e impossibilitarem o desencalhe.
Apesar do comandante ter permanecido 10 dias no navio após o encalhe, a carta que ele enviou para o Almirantado de Lisboa é relativamente superficial e não descreve muitos detalhes sobre o encalhe.
Resumo dos Pontos de Confluência entre o Naufrágio e o Postilhão da América (1801 – 1898).
- Local: “Rochedos de Itapuã”, como descrito nos ofícios da época. Não há outro naufrágio nesta localidade. O ponto é o exato ao relatado pelo IPHAN.
- Profundidade: de 1,5 à 4 metros, compatível com encalhe.
- Canhões como lastro: No final do século XVIII e início do XIX, era comum o uso de canhões danificados ou obsoletos como lastro.
3.1. Presença de 8 canhões visivelmente danificados;
3.2. Iron pigs em meio aos canhões;
3.3. Uma âncora danificada em meio aos canhões;
3.4. Disposição dos canhões amontoada na mesma direção; - Iron pigs: o uso era comum em navios não militares ao longo dos séculos XVIII e XIX.
- Peso do lastro: Estima-se que os 39 canhões (corronadas pequenas e colubrina de baixo calibre) com os 20 iron pigs pesem em torno de 30 toneladas. Compatível com um bergantim com deslocamento estimado entre 200 e 300 toneladas (10 a 20 % do deslocamento).
- Comprimento do lastro: A pilha de canhões como lastro mede 14 metros, compatível para um bergantim que medisse entre 20 e 25 metros de comprimento.
- Casco revestido de cobre: A presença de chapas de cobre sugere que o casco fora revestido com este material, prática comum em navios do final do século XVIII e durante todo o século XIX.
- Ausência de correntes e indícios do uso de cabos de cânhamo (estrutura tubular): Os navios começaram a usar correntes rotineiramente em veleiros na rota de Salvador com o exterior a partir dos anos 1830.
- Âncoras com cepo de madeira: A ausência de cepos e a presença de seção quadrada distal da haste sugerem fortemente que eram de madeira. Cepos de madeira nas âncoras do tipo almirantado foram usados do século XVI até os anos 1840. O cepo de ferro foi introduzido a partir da década de 1780.
- Sentido da haste de três âncoras voltadas para os arrecifes é compatível com o relato do comandante de tê-las lançadas ao mar com o intuito de evitar a colisão ou o encalhe.
- A escassez de peças metálicas pode ser compatível com a retirada para reaproveitamento, conforme relatado em ofícios da época.
Conclusão
O naufrágio localizado junto à Pedra que Ronca, em Itapuã, apresenta um conjunto de evidências materiais e circunstanciais que apontam fortemente para sua identificação como o bergantim Correio Marítimo Postilhão da América, perdido em 12 de maio de 1801.
A localização relatada em ofícios da época como sendo “rochedos de Itapuã”, a posição exata registrada pelo IPHAN que coincide com o sítio arqueológico subaquático documentado, apesar de não ter se conseguido verificar a procedência da informação. A presença de 39 canhões de ferro fundido, apesar de não alinhar-se com o armamento esperado para um paquete postal (relato de 10 peças), alinha-se bem como com a possibilidade — historicamente plausível e documentada em outros contextos — de que grande parte desses canhões tenha sido utilizada como lastro permanente, prática que explica tanto a quantidade elevada quanto a disposição desordenada e amontoada, assim como, a presença canhões danificados observada neste sítio. A presença de iron pigs entre os canhões não apenas reforça esta hipótese (de lastro), como também a sua aplicação coincide cronologicamente com a do Postilhão. A ausência de correntes de ferro para fundeio, a presença de âncoras sem cepo, sugere que teriam sido de madeira e a presença de apenas um cepo de ferro (âncora sem um dos braços), denotam também um período de transição que reforça a cronologia compatível com o final do século XVIII e início do XIX.
As quatro âncoras encontradas próximas aos arrecifes, uma delas ainda em posição de unhar com a haste voltada para os arrecifes, guardam correspondência direta com o relato do comandante André Jacob, que descreve a tentativa desesperada de lançar âncoras para evitar ou amenizar o encalhe nos rochedos. A escassez de diversos artefatos metálicos usuais (dobradiças, bigotas, resquícios de mastreação, bombas d’água) é coerente com os registros oficiais da época, que mostram esforços sistemáticos de salvamento e remoção de itens aproveitáveis para o Arsenal da Marinha da Bahia logo após o sinistro. A ausência de correntes e presença de moldes de cabos de ancoragem de cânhamo também reforçam a cronologia com a do Postilhão.
Outras hipóteses, como a de tratar-se do vapor D. Pedro II (1926) ou do Comandante Miranda (1927), únicos outros encalhes da região, são incompatíveis tanto pelo fato do desencalhe de ambos quanto pela tipologia do sítio (ausência de chapas de aço, caldeiras, hélices ou qualquer vestígio de propulsão mecânica).
Dessa forma, o naufrágio da Pedra que Ronca constitui, com elevado grau de probabilidade de ser o sítio arqueológico do Postilhão da América, o único remanescente nos dias atuais e um dos primeiros e mais representativos navios do Correio Marítimo Português instituído em 1798. Seu estudo oferece não apenas uma janela privilegiada para a operação dos paquetes postais no Atlântico Sul, mas também para as práticas de construção naval na Ribeira das Naus da Bahia, os desafios da navegação transatlântica no início do século XIX e as estratégias de salvamento e reaproveitamento de materiais na colônia.
A preservação e o registro sistemático deste sítio, ainda que em profundidade rasa e exposto às intempéries e à ação antrópica, são fundamentais para aprofundar o conhecimento sobre a história marítima e postal luso-brasileira, contribuindo para a valorização do patrimônio subaquático da Bahia e do Brasil. Recomenda-se, portanto, levantamento arqueológico, neste sítio, no intuito fortalecer as evidências, assim como, aprofundamento das pesquisas históricas em busca de documentos que possam trazer a luz novos conhecimentos deste navio tão importante da história brasileiras e das navegações. É importante também o monitoramento do estado de conservação de modo a proteger este testemunho material de um momento crucial da conexão transatlântica entre Portugal e sua principal colônia americana.
Isenção de Responsabilidade
Embora este texto apresente diversos dados do naufrágio em questão e sugira hipóteses, trata-se de um trabalho puramente amador e, portanto, não constitui um trabalho científico de arqueologia subaquática.
Declaro que não houve nenhuma exploração ou intervenção direta sobre o sítio em questão, tais como remoção manual de detritos, dragagens, retirada ou movimentação de peças deste naufrágio pela nossa equipe durante os mergulhos realizados. Restringiu-se apenas a coletas de imagens e pesquisa histórica.
László Mocsári
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