Destino: naufrágio

Quase Caribenho

Um dos mais belos naufrágios do Brasil, o Commandante Pessoa pode
ser consideradorecife de vida sobre o fundo de areia branca.


 
Revista Mergulho, Ano XII - Nº 140 - Março/2008
Texto: MaurÝcio Carvalho
 
No Brasil existem muito naufrágios com beleza cênica acima do comum. Quando mergulhamos no Pirapama, Pernambuco, Cavo Artemidi, na Bahia ou no capixaba Bellucia, só para citar alguns deles, é difícil dizer o que é mais belo, se os próprios destroços ou a profusão de vida que se desenvolve em torno deles. Apesar disso, eu não estava preparado para o que veria, quando embarquei no novo Living aboard Enterprise para mergulhar no Comandante Pessoa, ao norte de Natal.
Nunca vi no Brasil um cenário de fundo mais parecido com os jardins de esponjas típicos do Caribe. Os destroços do Comandante Pessoa estão cobertos por grande quantidade de esponjas tubulares amarelas, corais, gorgônias e toda a gama de peixes coralíneos que freqüentam esses ambientes, tornando-o um verdadeiro "recife de vida" sobre o fundo de areia branca.
 
 

FICHA TÉCNICA

DADOS DO NAUFRÁGIO
NOME DO NAVIO: Comandante Pessoa
DATA DO AFUNDAMENTO: 02.09.1954
LOCAL: Natal, RN.
POSIÇÃO: 12,2 milhas da Praia de Rio do Fogo, próximo a cidade de Touros, ao norte de Risca do Zumbi.
MOTIVO DO NAUFRÁGIO: Chocou-se com a Risca do Zumbi.
LATITUDE: 05º 08.723' Sul.
LONGITUDE: 035º 13.104' Oeste.
PROFUNDIDADE MÍNIMA: 22 metros
PROFUNDIDADE MÁXIMA: 27metros.
CONDIÇÕES ATUAIS: Desmantelado.

DADOS TÉCNICOS
NACIONALIDADE: Brasileira.
ESTALEIRO: American International Shipbilding Comp.
ARMADOR: Lloud Brasileiro.
COMPRIMENTO: 122,3 metros
BOCA: 16,5 metros
.
TIPO DE EMBARCAÇÃO: cargueiro.
MATERIAL DO CASCO: Aço
PROPULSÃO: hélice
CARGA: Sal.


 O COMANDANTE PESSOA

A história do Comandante Pessoa no Brasil começa em outubro de 1939, quando o governo financiou ao Lloyde Brasileiro a compra de treze navios da série Hog Islands (pequena ilha fluvial no estado da Filadélfia, onde estava estabelecida a empresa American International Corp).
Construído como Cliffwood em 1919, este cargueiro serviu a duas companhias até que em 1939 passou ao Lloyde Brasileiro com o nome de Comandante Pessoa. Era um navio de desenho clássico (tipo três castelos). Possuía um motor a diesel, chaminé única e dois mastros de carga. O casco era dividido em dois decks e cinco porões separados por oito comportas-estanques - ainda que, longo de sua história este navio ainda sofreu algumas reformas, instalando-se acomodações para o transporte de passageiros.

O NAUFRÁGIO
O Comandante Pessoa conseguiu navegar durante todo o período da 2ª Guerra Mundial sem problemas. Mas, maio de 1954, quando transportava uma carga de sal de Areia Branca no Rio Grande do Norte para Recife, chocou-se com os arrecifes da Risca do Zumbi, próximos ao Cabo de São Roque ao norte de Natal.
O Cargueiro ficou inicialmente encalhado nos recifes. Seu pedido de socorro foi captado pelo petroleiro inglês São Salvador, que logo se acercou do navio, aguardando o amanhecer para iniciar o salvamento.
Os comandantes da época costumavam navegar entre a risca e o continente, para ter o visual da costa, mas alguns preferiam o curso mais seguro e circulavam por fora, já que a risca era pouco mapeada. Aparentemente o comandante Borges, não "abriu" o suficiente seu navio cargueiro.

Alguns fatos estranhos cercam este acidente, pois o Comandante Pessoa acabou afundando ao norte da Risca de Zumbi, quando seria ser mais lógico tentar alcançar o porto de Natal após o choque. Os fortes ventos poderiam ter deslocado o navio até seu afundamento completo.
 
 

O MERGULHO
Embora muito bonito, o Comandante Pessoa é um dos naufrágio mais confusos em que já mergulhei, e fazer seu croqui exigiu um cuidadoso estudo do melhor ângulo. O mergulho só não se torna difícil, pois a claridade das águas na região facilita a orientação do mergulhador.
Os destroços estão distribuídos em três grandes porções, que dão a entender que o navio tenha afundado de proa, atingindo violentamente o fundo. A proa chocou-se com o fundo, ficando muito destruída. O casco teria sido "sanfonado" e partido atrás do castelo de proa, espalhando para o lado as estruturas que formavam dos porões pelo fundo.

De meia-nau, na altura da casa de máquinas, até a popa, o casco

emborcou para boreste.
Na popa a 23 metros, está o leme voltado para a superfície, o hélice foi removido. No meio do navio existe uma grande abertura. Por ela pode se penetrar na direção (*) da popa e na direção proa, onde estão o motor diesel e o tanque de combustível.
O segundo segmento do navio e formado pela proa da embarcação, que separada do resto dos destroços está adernada para boreste. Muito pouco sobrou dessa estrutura evidenciando um possível choque violento com o fundo. Podem ser vistos um guincho, cabeços de amarração e, a bombordo, a âncora ainda encaixada no escovém.

 
( * Na edição da revista o texto original foi alterado, provocando um erro de orientação).
 

Uma parte do casco de bombordo está apoiada em pé no fundo e forma uma verdadeira parede que separa a proa da terceira seção dos destroços.
A terceira parte dos destroços é formada por uma seção ainda intacta de porão, duas grandes estivas e restos dos mastros e grande empilhamento de casco, assinalam que nesta região estavam provavelmente os dois primeiros porões, que devem ter sido quebrados no choque contra o fundo.
Por todo o naufrágio além das incríveis esponjas e peixes coloridos circulam muitas raias, tartarugas, beijupirás e lambarus, além de cardumes de galhudos, enxadas e xaréus.

Para qualquer mergulhador o Comandate Pessoa será inesquecível, para os apaixonados por naufrágios é um point que não pode faltar no LogBook. Agradecimentos especiais a toda a tripulação do Atlantis Enterprise que garantiu os mergulhos com segurança, apesar de meu cotovelo recém-luxado, ajudar quase nada na hora de retornar ao barco pela escada no agitado mar do Rio Grande do Norte.

 

Curso de Mergulho em Naufrágios

 

Maurício Carvalho é biólogo, instrutor especialista em naufrágios, autor do SINAU (Sistema de Identificação de Naufrágios) e responsável pelo site Naufrágios do Brasil.

Veja mais em: Naufrágio do Commandante Pessoa
 

voltar a biblioteca