ELMETE (Navio do Chico)

Sumário

Pesquisa e texto Maurício Carvalho, fotos Roberto Costa Pinto e Maurício Carvalho

Histórico

Farol dos Abrolhos na Ilha de Santa Bárbara

Por volta de 2013 o navio foi encontrado por pescadores na face leste do Parcel das Paredes em Abrolhos, BA., posteriormente foi localizado com precisão durante os trabalhos de levantamento de recifes da Universidade Federal do Espírito Santo e chegou ao conhecimento dos mergulhadores em torno de 2019. Durante 5 anos ficou conhecido como “naufrágio do Chico”.
Embora os dados históricos do acidente levantados no SINAU (Sistema de Informações de Naufrágios) já indicassem a possibilidade de ser o vapor Elmete, faltavam dados de confirmação e a equipe de pesquisa só pode ir ao local em fevereiro de 2026.
Os mergulhos no local não são muito frequentes, pois a claridade da água na parte interna do Parcel das Paredes é menor do que na região da ilhas, devido ao desague do rio Caravelas, O Arquipélago mais afastado do continente, dentro do Parque Nacional e do outro lado do canal dos Abrolhos, que traz as águas claras do norte e onde estão o Guadiana, Santa Catharina e Rosalinda, tem águas mais claras.

Pesquisa e a identificação

As primeiras informações sobre o Elmete chegaram quando ele foi localizado na região de Abrolhos, BA. por pescadores e ficou conhecido como naufrágio do Chico.
A partir daí consultando os dados do SINAU (Sistema de Informações de Naufrágios) começamos a pesquisar as características de construção, tamanho e demais informações e cruzar os dados com o que já tínhamos da região. Mas era preciso conseguir dados técnicos locais para garantir a identificação.

A equipe de 11 mergulhadores realizou, durante três meses, muitas pesquisas sobre os naufrágios da região, localizou muitas informações novas e adquiriu novos equipamentos de busca na preparação da expedição

Daniel Mantovanello, Maurício Carvalho, Tatiana Mello, Carolina Silva, Matteus Sorage, Artur Ramos,  Raul Ramos,  Denise Bentes, Iara Abe

A oportunidade chegou quando a amiga Tatiana Mello responsável pela identificação de navios como o Irmãos Gomes e o Tutoya, e com quem já pesquiso naufrágios há muitos anos, organizou um grupo altamente entusiasmado por naufrágios. A equipe  desde de o início entrou de cabeça pesquisando os naufrágios da região, localizando novos dados técnicos, reavaliando todo o material de pesquisa que já tinha sido levantado e adquirindo equipamentos mais sofisticados para a busca como o Side Scan.
Assim, com vários objetivos e munidos de muitas informações e disposição, em fevereiro de  2026 partimos para Abrolhos na Bahia.
O local ajustava-se aos dados históricos do acidente e as medidas do naufrágio coincidiram perfeitamente com as medias registradas no Lloyds Register e nas plantas do navio obtidas pela equipe, assim não foi difícil confirmar a identificação depois dos primeiros mergulhos.

O vapor Elmete

O Elmete e o Bramham eram “sister ships”

O Elmete era um cargueiro de aço, construído na Inglaterra pelo estaleiro Willian Gray & Company. Ltd. de West Hartlepool e lançado ao mar em 1891 para a companhia London and Northern Steamship Company, Limited. Administrada por F. H. Pyman Bros.
O nome provavelmente é uma homenagem a um pequeno reino britânico durante o século IV, localizado no que hoje é o West Yorkshire.
Ele era classicamente um cargueiro com casario central e dois porões avante e dois a ré, servidos por mastros de paus de carga e guinchos correspondentes. Possuía 84,5 metros de comprimento, 10,7 de boca e 5,3 metros de pontal , deslocando 3.587 toneladas brutas. Suas máquinas de tripla expansão produziam 160 nhp, que movimentavam um hélice de cerca de 4 metros, proporcionando uma velocidade de 9 nós.
O Elmete partiu de Buenos Aires na Argentina em 28 de janeiro de 1895 em viagem para Antuérpia e sob o comando do Mestre David Williamson. Ela possuía uma tripulação de 22 marinheiros e 7 pecuaristas, pois em sua carga, além de fardos de lã e sacos de grãos, haviam 1.240 ovelhas vivas.

   


Documentos de registro no Lloyd inglês e a planta do cargueiro Elmete de onde as medidas como o arco do leme, porões e máquinas, que permitiram a confirmação da identidade, foram extraídas

Dados básicos

Nome do navio: S. S. Elmete
Data de afundamento: 05.02.1895

Dados de localização

Local: Abrolhos
UF: BA.
País: Brasil
Posição: Parcel das Paredes
Latitude: 17º 51′ 823 sul
Longitude: 038º 59′ 689 oeste
Profundidade mínima: 14 metros
Profundidade máxima: 23 metros
Condições atuais: semi inteiro

Dados técnicos

Nacionalidade: inglesa
Ano de fabricação: 1891
Estaleiro: Willian Gray & Co. Ltd. (West Hartlepool) Londres.
Armador: London and Northern Steamship Co Ltd – Pyman Bros
Deslocamento: 3.587 toneladas
Comprimento: 84,5 metros
Boca: 10,7 metros
Tipo de embarcação: cargueiro
Material do casco: aço
Carga: ovelhas, lã e cereais
Propulsão: vapor
Motivo do afundamento: choque com os recifes

O naufrágio

Ao meio-dia de 4 de fevereiro o Elmete subia a costa, saindo do litoral do Rio de Janeiro para o Espírito Santo, em velocidade máxima de 9 nós e a viagem corria muito bem.
Neste ponto, a direção foi trocada para uma rota N.E. por N. ½ N. verdadeiro que duraria até as 8 da manhã, afastando o navio do litoral. O comandante calculou que esses rumos levaria o navio à cerca de 20 milhas a leste dos recifes dos Abrolhos.
No dia 5 de fevereiro, já no litoral da Bahia, uma construção branca foi observada em uma ilha a cerca de 16 quilômetros de distância a bombordo da proa. O comandante pensava tratar-se do farol dos Abrolhos na ilha de Santa Bárbara.
Às 8h40, ao se aproximar da ilhota, o comandante constatou que se tratava da Coroa Vermelha em frente à Nova Viçosa, e não dos Abrolhos, como havia suposto; em razão disso, alterou o rumo para NE, com o objetivo – conforme declarou – de avistar o Parcel das Paredes, antes de estabelecer um rumo através do Canal dos Abrolhos.
Às 9h, o imediato subiu ao mastro e, com seu telescópio, avistou o Farol dos Abrolhos, segundo seu julgamento, a quatro pontos pela proa de boreste.
Às 9h10, então, pensando já ter ultrapassado o Parcel das Paredes, alterou o curso para leste, visando alcançar o centro da entrada do Canal dos Abrolhos. Nesse momento, o farol não era visível do convés.
Por volta das 9h30, uma rocha (recife) foi vista a cerca de oito quilômetros de distância. O comandante pensou ser o ponto extremo dos recifes e assim seu navio estaria livre de perigos.


A representação esquemática dos eventos da rota do S.S. Elmete que o levaram ao naufrágio

Porém, pouco depois, o Elmete bateu fortemente nos recifes submersos. O navio ficou preso pela proa, as máquinas foram paradas e revertidas a toda força, porém o navio permaneceu firme. Foram efetuadas sondagens ao redor da embarcação, encontrando-se 23 metros de profundidade na popa e apenas 10 metros a meia nau.
Oitenta toneladas de carga foram lançadas ao mar e com auxílio de uma âncora, as máquinas novamente foram invertidas. Nada, o Elmete estava irremediavelmente preso.
O tempo estava bom e claro, com ventos fracos e o mar completamente liso, assim mesmo, á meia-noite, já havia cerca de 1,5 metro de água no interior do navio.
Em uma lancha do navio, o imediato foi enviado a Caravellas, BA distante 25 milhas do ponto do encalhe, na tentativa de telegrafar e obter socorro, porém não obteve êxito. No dia 7 de fevereiro, a Barca Mourovia americana, atendendo aos pedidos de socorro, fundeou ao lado do Elmete e lá permaneceu parada, para ela foram transferidos 318 fardos de lã.
No dia 12 de fevereiro, os telegramas enviados de Caravellas, davam conta da necessidade e pedia as associações de salvamento e a empresa Wilson & Sons, com quem a companhia negociava, a presença de bombas; também diziam que a carga a ré estava preservada, mas que as ovelhas estavam morrendo de fome.

A grande extensão do Parcel das Paredes permanece totalmente submerso no meio da rota marítima entre os estados do sul e sudeste e os estados do norte e nordeste (os dois pontos são pessoas sobre recifes a dois e três metros de profundidade)

Ainda no dia 12, o imediato retornou de terra para o local do acidente, o Elmete tinha acabado de escorregar do recife e naufragar totalmente.
O Mourovia, fundeado nas proximidades, recebeu a bordo a tripulação do Elmete e posteriormente, alguns deles foram desembarcados em Barbados.
Do local onde o navio se encontrava encalhado, o Farol dos Abrolhos era visível, marcando E por S ¾ S, verdadeiro. O comandante estimou que o navio estivesse na borda sudoeste do Parcel das Paredes. Contudo, as provas a esse respeito não pareceram conclusivas ao tribunal inglês.
A investigação constatou que os cálculos desviaram o navio cerca de 30 milhas do curso correto. O Tribunal atribuiu a culpa ao comandante, que deveria ter fornecido instruções de navegação mais adequadas.
O comandante teve seu certificado suspenso por seis meses com a recomendação de que lhe fosse concedido um certificado de companheiro para o período.

Descrição

O navio encontra-se apoiado no fundo em sua posição de navegação com uma profundidade máxima na popa de de 23 metros e mínima de 14 metros. Ele está inteiro até a frente da cabine de comando e sala de máquinas. Daí até o bico de proa, ele está totalmente desmantelado, com uma sobreposição de chapas completamente aleatória. A proa está separada e ligeiramente adernada para boreste.
Na popa, junto ao fundo temos o hélice de 4 pás e o grande leme, o convés de madeira do castelo de popa já foi todo corroído permitindo ver o convés inferior. Na popa, além de peças convencionais como passadores de cabos e cabeços de amarração estão o volante do leme, com um timão sobressalente. Também existe uma pequena claraboia e uma entrada bem característica com escada para o andar inferior (essa entrada pode ser vista tanto no croqui, como na foto do navio).
   
O grande leme e hélice de quatro pás junto ao fundo é um dos pontos altos do mergulho no Elmete

    
Na popa, cabeços de amarração e a característica entrada de acesso a coberta de popa em frente a claraboia, compare com a foto original

Seguido sem direção a proa,  em um nível mais baixo, está o convés de carga da popa, onde as estivas do porão estão perfeitamente conservadas. O 4º porão ainda está com os suportes das tampas, mas o 3º está totalmente aberto. Os porões estão aparentemente vazios e o pavimento mais baixo está todo assoreado.
Entre os porões estão 2 guinchos de carga e o mastro enrolado em muitos cabos. Sua ponta está caída sobre a murada de boreste e a base do mastro colapsou penetrando dentro do 4º porão, junto a base em torno de todo mastro existem malaguetas.
  
O sistema de carga e descarga do navio com seus dois guinchos por mastro, estivas de porão e mastros de carga

No centro do navio, está o que restou do casario e por meio de claraboias no teto é possível ver alguns encanamentos de vapor. Nos dois bordos ainda persistem os suportes da coberta. Atrás do casario principal pode se encontrar a saída da chaminé. A estrutura completa da chaminé está caída na areia a boreste.
Na frente e abaixo do que seria a sala de comando é possível acessar a sala de máquinas onde se vê a máquina a vapor, embora a penetração não seja recomendado, dado o adiantado estado de decomposição do metal do Elmete.

Junto ao que restou do casario e das claraboias está o orifício da chaminé.  A estrutura externa da chaminé esta caída no fundo a boreste

Ao longo dos dois bordos existem acesso aos porões por estivas de serviço, rolos de cabos (sarrilhos), turcos e outras peças típicas de convés.
A região dos dois porões de proa está totalmente destruída, nela só existem um grande aglomerado de chapas e peças caídas, mas ainda podem ser identificados dois guinchos de carga e o mastro de proa, que também está caído a boreste. Esse amontoado de ferro da região dos porões evidencia o local onde o navio deve ter colidido e trepado nos recifes.
 
A escada que liga, em níveis diferentes, o castelo de popa ao convés de carga e os guinchos de carga entre as estivas dos porões
Devido as águas turvas (foto sem retoque) a navegação competente com o uso da carretilha garante a segurança

 
Um sarilho de cabo, os cabeços de amarração e estivas de serviço estão dispostas ao longo dos dois bordos do convés

O castelo de proa, bastante inteiro, volta a estar elevado e ligeiramente adernado para boreste, com o bico de proa apontado para a superfície. Nele estão, o guincho de âncora, travas de corrente, correntes, escovéns e cabeços de amarração.
O navio normalmente apresenta águas mais escuras, porém a estrutura contínua da cabine de comando até a popa facilita a orientação, principalmente pelo convés de bombordo, que está mais livre.
 
No bico de proa, ligeiramente adernado para boreste estão os escovéns, guinchos de âncoras e cabeços de amarração

Grupo de pesquisa
A equipe de pesquisa foi estruturada por 11 mergulhadores de São Paulo e do Rio de Janeiro com formação variada, todos com especialidade em Naufrágios e a maioria com formação em Pesquisa e Identificação de Naufrágios, alguns mergulhadores técnicos, instrutores e profissionais de TI.

Vários deles estiveram envolvidos na identificação do Tutoya, no litoral da Jureia em São Paulo.
Os mergulhadores Carla Pileggi e Octávio Contesini  não puderam ir a Abrolhos, mas permaneceram de terra dando apoio a equipe, fornecendo dados, mapas e outros elementos enviados a equipe de campo.
Conheça a equipe

   
Artur Ramos, Carolina Silva, Daniel Mantovanello, Denise Bentes, Iara Abe

   
Matteus Sorage, Maurício Carvalho, Octávio Pileggi e Carla Pileggi, Raul Ramos, Tatiana Mello  


Agradecimentos

Tripulação do Horizonte Aberto
Av. das Palmeiras 313, Centro
Caravelas – 
Bahia – Brasil
CEP: 45900-000
(WhatsApp)
(73) 98812-4678

horizonteaberto@yahoo.com.br

 

 

 

 

 

 

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