NAUFRÁGIO RIO DE JANEIRO
(antigo California)
 

Histórico

A história trágica marítima brasileira sempre foi contada de forma muito fragmentada e muitas vezes de maneira incorreta. Com naufrágios sendo associados a embarcações completamente diferentes. Entre esses naufrágios estão o Rosalinda, que recebeu uma associação com um navio chamado Rosalina, com características técnicas completamente diferentes. Com os destroços conhecidos como California esse processo se repetiu.

As pesquisas locais e bibliográficas indicam que o naufrágio da praia vermelha na Ilha Grande é conhecido como California pelo menos desde de 1938, com a publicação do Subsídios para a História Marítima do Brasil vol. 1 - Desastres Marítimos no Brasil - Dario Paes Leme, pela Marinha do Brasil.
Nesse documento pode ser lido: "1866 - Califórnia - Navio Brasileiro - a pique na Praia Vermelha, próximo a Araçatiba, Ilha Grande".
Infelizmente esse documento, que já é uma transcrição dos Anais Hidrográficos - Acidentes Marítimos no Brasil, outra publicação da Marinha do Brasil, que é a única referência primários existente que cita o California, apresenta muitos erros, principalmente de datas e não sabemos como nem de onde esses dados foram copilados. Mas as informações nunca foram consideradas confiáveis, porém, como eram as mais acessíveis isso determinou a identificação desse naufrágio.

 

Vista da costa do ponto sobre o naufrágio
Aproximadamente 40 metros do costão

Vista da praia Vermelha do mesmo ponto sobre o naufrágio
 
Em julho de 1987 fiz meu primeiro mergulho no naufrágio do California na Ilha Grande. Na época ele foi mais um navio que me encantava pela beleza. Mas o interesse pelos naufrágios cresceu e comecei a buscar informações sobre todos naufrágios do Brasil, num verdadeiro trabalho de garimpagem. Os jornais de 1866 e anos adjacentes foram lidos e revirados, mas nenhuma informação do California existia. O erro não surpreendia, já que a quantidade de datas incorretas no documento da marinha era bastante grande.
Ao longo dos anos alguns autores afirmavam ser um vapor de transporte de escravos, mas a argumentação não fazia sentido, já que na década de 70 uma carga de armas, de diversos tipos, perfumaria, pentes, escovas de dente, entre peças de nobre porcelana foi resgatada do naufrágio, como está fotograficamente representado no livro Super Sub, 1983 de Américo Santarelli.
 

No meio dessa névoa de hipóteses, fala-se de ataque de piratas, incêndio, entre outras versões fantasiosas, que não passavam de contos verbais e não encontravam na bibliografia o apoio necessário a sua ratificação.
No início de 2007, enquanto realizava uma pesquisa de outro naufrágio na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, encontrei acidentalmente a história do Vapor Rio de Janeiro. Os dados muito bem descritos no Jornal Diário do Rio de Janeiro, de 06.06.1853, indicavam o naufrágio de navio estruturalmente semelhante e no mesmo local do "California".
Depois de buscar e encontrar mais dados, fiquei certo de que essa era a identidade do naufrágio, mas faltava a prova final para acabar com as dúvidas. Essa desconfiança foi publicada já na Revista Mergulho ano XI, Nº 133 de agosto de 2007 como California ou Rio de Janeiro.

Vapor semelhante ao que seria o Rio de Janeiro
 
 
A Descoberta
No dia 30 de novembro de 2015 recebi pelo telefone, uma foto que em uma única linha me deixou muito feliz. Era a prova que faltava para fechar a identificação. O amigo e jornalista Mauro Ferreira - que não era mergulhador, mas tornou-se um apaixonado pelas histórias dos naufrágios, havia encontrado a notícia que faltava durante a pesquisa para a produção do argumento de um programa para a TV que estávamos preparando.

No jornal Correio Mercantil de 04.01.1860 estava o necrológio da linha de vapores intermediários, pertencente a Companhia Brasileira de Paquetes a Vapor, nessa pequena matéria pode ler o destino de vários navios da companhia, e especificamente estava descrito: "vapor Rio de Janeiro (antigo California) incendiado na Ilha Grande".
 
Estava desfeito o mistério

A história do Rio de Janeiro
O paquete a vapor Rio de Janeiro pertencia a Linha de vapores Intermediários para o Sul, que prestava serviço entre alguns dos principais portos do Rio de Janeiro até o porto de Rio Grande, RS. Ele era comandado pelo experiente tenente Pedro Hippolyto Duarte e prestava serviço de carga e passageiros como, anunciado regularmente no jornal Diário do Rio de Janeiro. Frequentemente prestava serviço de transporte de armamento para o exército brasileiro.
Em sua última viagem, no dia 1º de junho de 1853, às 8 horas da manhã, saiu do Rio de Janeiro com destino a Santos.
Ainda no dia 1º, às seis horas da tarde, passava por fora da Ilha Grande, quando a tripulação descobriu que havia fogo na carvoaria.
 

Jornal que confirmou a identificação que
estava feita desde 2007


Maurício Carvalho e Mauro Ferreira,
juntando os pedaços do quebra cabeça
 
Comandada bravamente pelo tenente Hippolyto, a tripulação tentou de tudo para controlar o fogo. Sendo baldados os esforços para deter o incêndio, o comandante determinou embicar para a costa; seu medo era o fogo atingir o porão onde estava uma carga de 200 arrobas de pólvora - cerca de 3.000 quilos - o que produziria a explosão do navio.
A meia-noite o fogo cresceu e era considerado descontrolado, o vapor foi levado a Praia Vermelha na Ilha Grande, a fim de garantir a segurança dos 12 passageiros e dos 20 tripulantes, no caso do fogo atingir a carga.
Meia hora depois de ancorado, todos os que nele viajavam foram desembarcados na praia. O comandante, contramestre, maquinista e o Sr. Marim, capitão de navio mercante, que vinha como passageiro e prestou relevantes serviços no combate às chamas e organização dos passageiros, foram os últimos a deixar o navio.
Poucos minutos depois o vapor Rio de Janeiro sofria duas grandes explosões, sendo, as partes fora d´água completamente destruídas e indo ao fundo de uma vez.
Uma das explosões pode ter sido provocada pela caldeira, o que explicaria a aparência de meio cilindro que pode ser visto no fundo.
 
Dois fatos curiosos ocorrem nesse naufrágio. O primeiro é o cuidado que os doze passageiros tiveram em preparar, logo na manhã do dia 3, ainda na Praia Vermelha, um abaixo assinado, com os maiores elogios ao comandante e tripulação, pelos esforços em salvar o navio e seus passageiros diante do perigo de uma explosão.
A segunda é o comentário sobre a possível causa do naufrágio, segundo alguns jornais: "Há razões para acreditar que o fogo foi provocado por um escravo que se degolou depois de cometido este ato de barbárie."
Na manhã do dia 3 os passageiros e tripulantes do vapor Rio de Janeiro, foram resgatados pelo vapor da Marinha do Brasil, Pedro II, que transportou todos ao Rio de Janeiro. Nos meses que se seguiram o seguro do navio foi pago no Rio de Janeiro.

Em 1854 um comerciante de nome Antônio Vicente Pereira foi contratado para, segundo os jornais, "tirar do mar os restos do vapor incendiado" Em dezembro deste mesmo ano, o comerciante reclamava na justiça seu pagamento e o juiz municipal de Angra dos Reis, determinou o pagamento e informou que: "na primeira embarcação, faria a remessa para o arsenal de guerra dos artigos bélicos salvos do vapor Rio de Janeiro; que estavam sob a guarda do comandante do Corpo de Infantaria e cavalaria do município.
 
   
Máquinas a vapor do tipo
"Direct Acting Engine"
Máquinas a vapor
encontradas no Rio de Janeiro
 
Mas em que momento o Rio de Janeiro desapareceu do conhecimento comum, isso ainda não sabemos. Possivelmente, por ter, alguma peça gravada com seu nome ter sido recuperada durante sua exploração. Fato semelhante ocorreu com o navio brasileiro Therezina, naufragado na Ilha Bela, SP. em 1919.
Ele constava nas mesmas listas da Marinha do Brasil que o naufrágio registrado como Sigmound, seu nome antigo. O Sigmound tinha seu nome escrito no casco com letras em alto relevo. Quando o navio foi passado ao Brasil, provavelmente por seu estado já precário, não valia a pena retirar as letras. Assim, foi aplicada tinta sobre essa as letras e pintado sobre elas o novo nome, Therezina. Passado anos no fundo, com a tinta já desfeita, foram recuperadas as letras do nome original, que estavam presas ao casco. Nos documentos da Marinha, dois naufrágios passaram a existir Therezina e Sigmound, até que o erro foi descoberto na década de 90.

 
Desmontadas no fundo, nos dois bordos do Rio de Janeiro, encontramos diversas das
p
ás de propulsão, um pouco que sobrou das rodas de propulsão
Cilindros e pistões das máquinas
 
Condensador de paredes duplas
Suporte do eixo de rodas
 

DADOS BÁSICOS

Nome do navio: Rio de Janeiro - antigo California

Data do afundamento: 02.06.1853

LOCALIZAÇÃO

Local: Praia Vermelha, Ilha Grande

UF: RJ.

País: Brasil

Posição: Costão sudoeste, enseada da Praia Vermelha

Latitude: 23° 09.570' Sul

Longitude: 044° 21.002' oeste.

Profundidade mínima: 08 metros

Profundidade máxima: 12 metros

MOTIVO DO AFUNDAMENTO: incêndio e explosão

DADOS TÉCNICOS
Nacionalidade: Brasileira
Armador: Companhia Brasileira de Paquetes a Vapor - Linha de vapores Intermediários para o Sul
Comprimento: 42 metros Tonelagem: 532 Toneladas
Tipo de embarcação: vapor de rodas
Material do casco: madeira chapeada Propulsão: roda de pás
Carga: Armas e 200 arrobas de pólvora.
 
Descrição

Assentado a cerca de 45º em relação ao costão direito da Praia Vermelha, de onde está afastado cerca de 30 metros, o navio encontra-se a cerca de 8 metros e bastante enterrado, apenas com as peças assinaladas a mostra.
Existe atualmente cerca de 50% das estruturas que compunha o vapor.
Em pouca profundidade a água costuma ser mais clara que abaixo de 12 metros. A partir de 8 metros é vista parte da quilha com suas cavilhas, chega-se a caldeira única e partida, restando apenas meio cilindro. Parte do encanamento de baixa pressão do trocador de calor é visto sobre a parte que sobra da caldeira. Caído ao lado de bombordo da caldeira está o condensador de paredes duplas.
Segue-se as
máquinas a vapor do tipo "Direct Acting Engine", caídas sobre o fundo, restando apenas metade dos 2 cilindros principais e os pistões e barras de ligação entre os pistões e o virabrequim. Ao lado de bombordo está o cilindro da bomba d'água.
 

Trocador de calor da caldeira de baixa pressão Pistons e bielas de máquinas do tipo Direct Acting Engine Mancal Quilha com cavilhas de bronze Braço de força do girabrequim ("Pata de Gafanhoto"). Muito carvão Resto das rodas e pás das rodas de propulsão. Resto das rodas e pás das rodas de propulsão.


 
Nas duas laterais das máquinas estão um grupo de engrenagens e algumas das pás das rodas de propulsão. Até o meio do navio podem ser vistas partes do costado com suas cavernas de madeira.
A meia nau, logo atrás das máquinas está a maior estrutura do naufrágio, que se ergue até os 6 metros de profundidade. Ela sustentava todo o conjunto de máquinas com seus pistões e o eixo das rodas de pás. No alto dessa estrutura, a bombordo, pode ser visto o mancal do eixo.
De meia nau para trás não existem peças distinguíveis, apenas um aglomerado de partes, principalmente a estrutura da quilha e parte da carga, encobertos por muito sedimento.
 

Visão superior da caldeira e condensador

Detralhe do dente da caldeira
 


Caldeira em sela

Tubulação do trocador de calor de baixa pressão
As foto da Caldeira revelam características interessantes.
A caldeira é do tipo sela, que pode ter explodido durante o afundamento, pode ser vista inteira no vapor Paulista.
É uma caldeira de baixa pressão, que pode ser comprovada pelos tubos de troca de calor de grande diâmetro.

 


A surpresa

No dia 07 de dezembro de 2015, voltei ao local para o primeiro mergulho no, agora identificado, vapor Rio de Janeiro. Seria um mergulho comemorativo na companhia de mais uma turma do Curso de Mergulho em Naufrágio.
Já fui surpreendido com o carinho dos alunos da Turma da Captain Dive que prepararam uma surpresa, para comemorar a identificação do naufrágio do California, como vapor Rio de Janeiro.

Porém outra surpresa estava reservada


Durante a atividade, identifiquei um Peixe Borboleta que só existe no Pacífico, trata-se do Heniochus acuminatus, esse bonito peixe vive em pares ou pequenos cardumes.
O animal estava sozinho, mas parecia muito sadio, ativo e se alimentando. Todos os mergulhadores puderam ver o animal que circulava tranquilamente e pode ser intensivamente fotografado e filmado.
Provavelmente mais um caso de bioinvasão, problema ecológico que tem aumentado muito no planeta. As causas dessa invasão são difíceis de determinar em um primeiro momento e a esperança é que como o animal estava sozinho, passe por seu ciclo de vida e não prejudique a fauna local, já tão alterada pela invasão do coral do sol, que inclusive pode ser visto em grande quantidade na foto, fixado as estruturas do Rio de Janeiro.

 


Comemoração da turma de naufrágio




Peixe borboleta exótico ao Brasil - Bioinvasão



Heniochus acuminatus