Cutty Sark
Royal Museums Greenwich, Inglaterra
 

Royal Museums Greenwick
Por toda a Inglaterra existe um grande e bem preservado patrimônio de museus de guerra e navios históricos. Na região de Londres e seu entorno, onde existe a disposição um sistema de transporte muito eficiente e acessível, podem ser visitados diversos navios. Em
Portsmounth estão o HMS Victory, navio do comandeante Nelson, o encouraçado HMS Warrior, a canhoneira M-33 da batalha de Gallipoli e o submarino Alliance. Em Londres estão um vapor de rodas transformado no "Pub on the Tamisa", o Golden Hinde, réplica do navio do capitão Drake e o HMS Belfast. Já em Greenwich está o lendário clipper Cutty Sark.
Juntam-se a eles uma série de museus onde existe um enorme patrimônio para os amantes de navios e naufrágios, com o Museu da Indústria em Londres e o National Maritme Museum em Greenwich.
Cada uma dessas atrações ilustra um período importante da história da navegação e permite ao mergulhador de naufrágio treinar seus olhos na estrutura dos navios antigos para, mais facilmente, reconhecer
no fundo as peças dos naufrágios.

No sudeste de Londres está o bairro Greenwich, onde pode se chegar facilmente pelo metro, ônibus ou pela linha de barcos que cruzam o Thamisa, com várias estações inclusive a do Cutty Sark. O navio faz parte do Royal Museum Greenwich e é uma das atrações do bairro junto com o National Maritime Museum com seu maravilhoso acervo da história naval inglesa, o Royal Observatory, onde está localizado o primeiro meridiano (Meridiano de Greenwich), o Quee's House e o Greenwich park.
O Cutty Sark abre diariamente das 10:00 as 17:00 hs e em julho de 2019 a entrada era de 13.50 Libras para adultos e 7.00 libras para crianças.

 


Cutty Sark


Greenwich
 
O comércio do chá
O chá surgiu em 2737 a. C na China antiga durante o reinado de imperador Shen Nong. Preocupado com sua saúde, mandava ferver a água antes de bebê-la.
Segundo registros, um dia acidentalmente caíram na água que fervia algumas folhas da árvore Camelia sinensis (atualmente conhecida como planta do chá), produzindo uma infusão de cor acastanhada e sabor de canela, o que agradou ao imperador.
Entre 618 e 906 a.C o chá se tornou numa bebida nacional na China, tendo pela primeira vez surgido a palavra "ch'a". Os monges budistas foram os responsáveis pela expansão do chá na China e no Japão, para onde a bebida foi levada já no século VIII.
No século XIV os frades jesuítas que viajavam nas caravelas portuguesas descobriram a bebida durante suas visitas as cidades das rotas marítimas do Oriente. Em 1560 o chá chegaria à Europa. Poucos ambos depois Portugal trazia comercialmente o chá para Lisboa, de onde holandeses o transportavam para Holanda, França e outros países. Em 1602, interessada no rico comércio a Holanda passou a fazer as rotas do Pacífico e a Companhia Holandesa das Índias Orientais tornou o chá muito popular no seu país.
Em 1650, os holandeses levaram o chá para seus portos como New Amsterdama (atual Nova York) na América do Norte. Em 1767 os elevados impostos aplicados pela coroa inglesa aos colonos americanos que comercializavam o chá que chegava ao território serviu de pretexto para o início da rebelião dos colonos, marcada pela revolta em 1773 conhecida como "Boston Tea Party", na qual foram atiradas ao mar milhares de caixas de chá inglês e que culminou com a independência do Estados Unidos.
Entre 1652 e 1654 o chá chega a Inglaterra e rapidamente torna-se uma bebida popular. Com o fim do monopólio de comércio da Companhia das Índias, o desenvolvimento da indústria naval e a queda do comércio do ópio, o mercado se desenvolveu e mais companhias enviaram seus barcos para a Ásia para importar chá. A a redução no preço tornou a bebida ainda mais popular.
Séculos depois o chá é parte integrante da cultura inglesa.
 

 

O Navio
Nos meados do século XIX existia um forte comércio de chá entre a China e a Grã-Bretanha, que gerava grandes lucros e naturalmente competição para as companhias de navegação. No entanto pela característica do produto, era necessário a maior velocidade possível nas embarcações para dominar os mercados consumidores. Os veleiros que gastavam cerca de 3 meses na viagem, permaneciam menos de 25 dias em portos da china, para desembarcar as mercadorias do ocidente e embarcar as caixas de chá.
O desenvolvimento da navegação a vela e essa necessidade por maior velocidade produziu uma embarcação conhecida como Clipper,apresentavam de três a cinco mastros e se caracterizam pela linha afilada capaz de cortar a água com grande eficiência pela grande área vélica. Esse tipo de veleiro iria marcar diversos recordes na travessia comercial da China até a Inglaterra.
Nesse cenário de competição, o Cutty Sark foi encomendado no final de 1868 aos estaleiros Scott & Linton em Dumbarton, no rio Clyde na Escócia, tradicional na industria de construção naval.
Com projeto arrojado do engenheiro naval Hercules Linton foi construído durante o ano de 1869 e lançado no dia 23 de novembro desse mesmo ano. Seu nome, que na tradução literal da expressão escocesa "Cutty Sark", significa "Pequena Camisola", foi inspirado no poema de Robert Burns, publicado em 1791, Cutty Sark é o apelido da bruxa Nannie Dee, que persegue o personagem "Tam o'Shanter" agarrada na cauda de seu cavalo.

 
Bruxa Nannie Dee
   
No comércio do chá cada pequeno espaço era preenchido por caixas do valioso produto
 
O incrível estado em que se encontra o Cutty Sark depois da restauração realizada após o incêndio de 2007. O navio já pode ser visto à esquerda, logo depois da saída da estação
do metro "Cutty Sark" em Greenwich. A estrutura de vidro da base da a ideia de que o navio ainda navega, acentuando suas linhas esbeltas de clipper
 
DADOS TÉCNICOS
Tipo de embarcação: Clipper Nacionalidade: inglesa
Lançamento: 22.11.1869 Estaleiro: Scott and Linton, Dumbarton, Escócia
Comprimento: 64,74 metros Boca: 11 metros Calado: 8,8 metros
Deslocamento: 2.100 toneladas Material do casco: ferro, madeira e cobre
Propulsão: três mastros principal 43,6 metros

Velame: Podia utilizar simultaneamente 32 velas, com 11 milhas de cabeamento

Velocidade: 17 nós (19 milhas/h)
Tripulação: oscilava entre 25 e 30 homens
A estrutura de vidro cobre o dique original para onde o navio foi rebocado
   
   
Cutty Sark a plenas velas, com sua estrutura afinada de Clipper
Cutty Sark ancorado em Portugal
 

 
Proa
O Cutty Sark era um Clipper de tamanho médio. Apresentava quase 65 metros de comprimento e 2.100 toneladas divididas em três decks, mantendo as linhas clássicas de clipper, um bico de proa projetado e um casco muito fino capaz de cortar a água com facilidade. Era armado com três mastros altos, mais o gurupés e até 32 velas podiam ser abertas simultaneamente. A grande superfície vélica permitia uma velocidade de cruzeiro em torno de 13 nós. Mas em seu recorde, a velocidade chegou a atingir 17 nós.
 
 
O mastro do gurupés se projetando da proa afilada
 
A proa como seria vista sob a água
Bico de proa do clipper
     
A figura de proa do Cutty-Sark (expressão escocesa para "pequena camisola" e apelido da bruxa Nannie Dee, que no poema de
Robert Burns (publicado 1791) persegue o personagem Tam o 'Shanter, agarrada na cauda de seu cavalo
As âncoras almirantado presas ao bordo depois de recolhidas
     
Lanterna de navegação de bombordo (a de boreste é verde), permite as embarcações identificar a noite a rota de outros navios em rumo oposto evitando choques
Guincho de cabrestante de proa para suspensão das âncoras. Acionado por tração
dos marinheiros. As traves utilizadas pelos marinheiros, introduzidas nos orifícios
pretos do guincho permitiam a rotação do mecanismo
Compartimento de guarda da corrente
com detalhe em vidro para
entendimento do público
 

 
A Estrutura interna e o casco
Sua estrutura interna era toda de ferro e era recoberta por um casco de madeira, na maior parte de carvalho. Sobre a madeira revestimento externo de folhas de latão fixadas ao casco por pequenos pregos do mesmo material. As funções desse revestimento são proteger o casco dos vermes marinhos (gusanos) que se alimentam e destroem a madeira e demais seres incrustantes como esponjas, corais e moluscos como mariscos que aderidos ao casco aumentam o peso e resistência da água. O revestimento permitia um aumento da durabilidade e velocidade da embarcação. Esse tipo de revestimento ainda pode ser visto em muitos naufrágios como o Rio de Janeiro (antigo California - Ilha Grande, RJ) e o Queimado (Eire, João Pessoa, PB).
 
Estrutura composta de ferro, o casco de madeira e
o revestimento de latão
Parte submersa do casco era integralmente revestida por folhas de latão
Toda a quilha e casco protegida. É possível ver
os pequenos pregos de fixação
 

Quilha, cavername, colunas e as vigas de ferro,
formavam uma estrutura sólida
As estruturas de sustentação e as cavernas eram fixadas por rebites
ou parafusos, indicando uma transição na forma de construção
Apesar dos anos de utilização e do incêndio de 2007
a estrutura ainda encontra-se bem conservada

 
O convés e mastros
No convés do navio estão muitas peças interessantes como guinchos, cabeços de amarração, bombas d'água, além de três pequenos casarios onde existiam alguns alojamentos e cozinha, deixando toda a parte de porões para as caixas de chá.
Os mastros está muito bem organizados com toso os sistemas de malaguetas, polias e moitões posicionados em seus lugares correspondente, numa fiel restauração do sistema de manuseio das velas.
 
Visão do convés do pequeno castelo de popa
Bomba d'água, que extraía a água do fundo do navio
 
Bombas para água doce dos tanques do navio
Diversos personagens caracterizados com trajes de época desfilam pelo navio
Cabeços de amarração
 
Os três mastros cada um com 5 traquetes, sendo o mastro principal (grande) com 43,6 metros de altura, além do gurupés a proa e da caranguejeira no mastro de popa (mezena), podiam utilizar simultaneamente 32 velas.
 
Os moitões esticavam as velas de entre-mastros
As bigotas mantinham a tensão nas velas principais
As armações das bigotas estão presentes no Blackadder
 

O belo sino de bronze do Cutty Sark
A tampa da estiva de porão e os guinchos de carga posicionados em frente das estivas podem ser vistos com a mesma disposição
e da mesma forma em naufrágios como o Guadiana em Abrolhos, BA.

No interior
Ao longo de primeira coberta está a mostra toda a estrutura do cavername, colunas e suportes do mastro, permitindo o entendimento de como as cavernas eram fixadas e como eram feitas as estruturas de reforço do casco. O desgaste do tempo pode ser visualizado nas cavernas corroídas e o formato das cavernas, moldando o casco, são perfeitas para treinar os olhos e no fundo permitir a identificação da posição na proa, meia-nau ou popa, de um mergulhador no naufrágio.
Toda a organização da segunda coberta está organizada como se fossem as caixas e chá arrumadas para o transporte.
 
Todo o espaço interno do navio era dedicado a acomodação cuidadosa das caixas de chá, para aproveitamento máximo do espaço.
O display do segundo deck do museu com informações do comércio simula essa acomodação das caixas
Homens com grandes martelos ajustavam as caixas durante o
carregamento para que não sobrasse espaço entre elas
 
Cozinha no deck suerior
Beliches na acomodação da tripulação
Sala de estar e refeições dos oficiais
 

Na primeira coberta muitos itens da carga e vida a bordo
do Cutty Sark. Boia salva-vidas original

Muitos dos itens da carga do Cutty Sark que seguiam
do ocidente para o oriente estão apresentados em
displays na primeira coberta do navio
 

Na Popa
Como em quase todo veleiro o castelo de popa é baixo, para permitir a instalação no mastro de popa (mezena) da caranguejeira ou retranca (apoio da vela latina de popa) e sua operação, que oscila de um bordo a outro.
Na popa está o acesso aos cômodos dos oficiais, com camarotes, salas de jantar e banheiros. A bitácula de bússola, volante do leme e timão também estão posicionados nesse local, diretamente acima do leme.
 

A popa em leque, pode ser vista a ponta da caranguejeira

Bitácula de bússola no castelo de popa

O timão e volante do leme (na caixa) na popa
Leme e suas governaduras
 

 

A História do Cutty Sark
Sua viagem inaugural ocorreu em 15 fevereiro de 1870 com destino a Shangai transportando vinhos, cervejas e carga geral, chegando a china em 31 de maio. Retornou com uma carga de 1.305.812 libras de chá acomodados em caixas que eram cuidadosamente arrumadas em seus dois decks por trabalhadores que utilizavam grandes martelos para ajustar as caixas.
Na segunda metade do século XIX, competia com outros clippers, como o Thermopylae na corrida do chá. Partindo do porto de Xangai via estreito de Sunda e chegando a Londres quatro meses depois.
Sua ultima viagem no comércio de chá ocorreu em 1877

No final do século XIX os vapores começam a substituir os Clippers na corrida do chá. Em 1914 é inaugurado o canal de Suez, que deu ao vapores que podiam atravessá-lo, grande vantagem na rota do oriente.
Assim o Cutty Sark foi transferido para as rotas do comércio de lã com a Austrália, Onde chegou a transportar cargas de lã até a Inglaterra em apenas 67 dias. Neste período, conseguiu atingir velocidades médias de 15 nós (27,7 km / h), percorrendo 360 milhas náuticas (666 km) em 24 horas de navegação.
Em 22 de julho de 1895, foi vendido à empresa portuguesa Joaquim Antunes Ferreira & C.ª, por 1.250 libras esterlinas, sendo rebatizado como Ferreira.

 
A linha histórica dos 150 anos do Cutty Sark escritas na caixa de chá
 
Navegando com a bandeira de Portugal, foi destinado a transportar mercadorias variadas entre Portugal e principalmente suas colônias Angola e Moçambique na África, mas também navegou para o Brasil e Estados Unidos e Reino Unido permanecendo nessa função até 1914, devido aos riscos de navegação durante a 1ª Guerra Mundial foi recolhido ao porto.
Em 1916, possuo por uma grande reforma, sendo reconvertido em uma goleta no porto da Cidade do Cabo (África do Sul) e rebatizado como "Maria do Amparo". Em 1922, o capitão Wilfred Dowman comprou a embarcação por 3.750 libras e devolveu o aspecto original de um Clipper, restaurou seu nome original, transformando o navio em embarcação de recreio.
Quando Dowman morreu, sua esposa o presenteou ao Thames Nautical Training College. Cutty Sark foi usado como navio de treinamento de cadetes em Greenhithe até os anos 50.
 
Notícias da ttransferência do navio para os portugueses e a recuperação para a história da navegação
 
O navio, já em mal estado, é rebocado para um dique no Thamisa onde seria restaurado e acabaria se tornando museu permanente
 

 
O Museu
O navio estava em péssimo estado, mas por ser o Cutty Sark um dos três últimos sobreviventes da época dos Clippers, foi formada para salvar o navio a Sociedade Cutty Sark, patrocinado por HRH, o Duque de Edimburgo.
Em 1954, o navio foi rebocado pelo Thamisa até Greenwich, e colocado em uma doca-seca próxima ao Museu Nacional Marítimo. Como parte do acervo do Royal Museum Greenwich, sofreu uma completa restauração para tornar-se mais um barco-museu ao custo estimado de 25 milhões de libras esterlinas. Foi aberto ao público em 1957, constituindo-se, junto com o observatório de Greenwich em uma das principais atrações do bairro no sudeste de Londres.
No dia 21 de maio de 2007 um devastador incêndio destruiu boa parte da estrutura da embarcação. Após esse desastre uma campanha de arrecadamento de fundos com apoio público e do Heritage Lottery Fund, permitiu além da restauração do navio, elevar o casco a cerca de três metros de altura, para permitir aos visitantes observar o seu casco por baixo. O Cutty Sark foi reaberto ao público em 2012.
A embarcação tornou-se marca de um famoso whisky.
 
     
Entrada do museu em Greenwich
 
A nova cobertura criou a sensação da superfície do mar, com espaço para loja de lembranças, cafeteria e área de exposição abaixo do casco
 
Uma grande exposição com figuras de proa de navios
As figuras de proa são emblemáticas nas embarcações, sua função é trazer sorte a embarcação
 

 

No Brasil
No Brasil existem muitos navios afundados do tipo Clipper e com características semelhantes ao do Cutty Sark, como o Guadiana (Abrolhos, BA. - 1885), Galeão de Serrambi (Serrami PE.), Royal Stander (Barra de São Thomé, RJ. - 1869), Stag House (Sul de Pernambuco em 1861). O Blackadder naufragado em 1905 na Praia da Boa Viagem na Baía de Todos os Santos em Salvador BA. é sem dúvida o mais importante, por ter sido construído em cima dos planos originais do Cutty Sark e em um mergulho muito fácil, poder servir de demonstrativo desta estrutura tão característica.

 


VISITAÇÃO
Royal Museums Greenwich, Inglaterra
Abre diariamente das 10:00 as 17:00 hs
Em julho de 2019 a entrada era de 13.50 libras para adultos e 7.00 libras para crianças


 


 
Consulte nosso guia de estruturas de vapores e conheça mais sobre sua construção e características, caso deseje identificar as peças pelo visual utilize o esquema na página de Navios à vapor.
 


Navios a Vapor