Destino: naufrágio

Em que navio estou?

Saber identificar o tipo de embarcação naufragada
facilita o planejamento do mergulho


 
Revista Mergulho, Ano XI Nº 134
Texto: MaurÝcio Carvalho
 

Segundo o SINAU (Sistema de Informação de Naufrágios), no Brasil existem cerca de 354 naufrágios localizados, deles, 98 não tem identidade confirmada; isso significa, que o mergulhador ira explorar destroços que não permitem uma pesquisa prévia, tanto da história do desastre, como da configuração da embarcação.
Nessa situação, uma boa orientação do mergulhador dependerá da rápida identificação nos destroços do tipo de navio, para que ele possa saber o que esperar e que tipo de peças poderão ser encontradas.
O problema é que há uma grande quantidade de tipos de embarcação. Podemos, todavia, distinguir quatro tipos básicos: Veleiros, Mistos (vapores e velas), Vapores e Navios Modernos (propulsão a diesel).
Se o mergulhador estiver apto a identificar o tipo de barco entre essas configurações, poderá projetar o tipo de mergulho a ser feito. Por isso, essa capacidade é considerada conhecimento básico para os mergulhadores de naufrágio.
E mergulhador de naufrágio, na prática, é quem consegue desfrutar melhor do maravilhoso cenário subaquático, reconhecendo o que está vendo e capazes de inserir essa paisagem no contexto dos eventos históricos. Procure estudar a configuração dos navios ou participar de cursos que possam apresentá-lo a grande variedade de configurações de navios. Se ver peixinhos já é maravilhoso, imagine quando eles emolduram um cenários de aventura e mistério.

1- Veleiros

É fácil pensar que, para identificar um veleiro bastaria procurar pelos mastros, mas infelizmente a situação não é tão simples. Os mastros por permanecerem depois do naufrágio para fora d'água, acabam sendo removidos para não prejudicar a navegação local. Além disso, como são feitos de madeira, decomponhem-se mais rapidamente.
O mergulhador deve estar atento a outros detalhes: o grande tamanho do leme, o formato afilado do casco e os aparelhos de manuseio das velas, como as malaguetas e bigotas - peças utilizadas como roldanas no período inicial da navegação. Essas estruturas estão alinhadas ao longo da borda do casco junto à posição onde estavam os mastros.
Também é possível verificar o leme, embora freqüentemente ele esteja enterrado. Caso seja localizado cheque o tamanho, pois em veleiros eles são particularmente grandes em relação às proporções do casco. Mesmo que não existam hélices atrás do leme, não deverá significa necessariamente tratar-se de um veleiro, pode ser um vapor de rodas. O Black Adder (Salvador), Chuck (Rio de Janeiro) são exemplos de veleiros no Brasil.

2 - Vapores

A identificação dos navios a vapor é ainda mais fácil: no centro da embarcação (quando ele pode ser determinaá-lo), existem as caldeiras, responsáveis pelo fornecimento de vapor as máquinas. Fique atento, pois as caldeiras podem estar destruídas e apenas uma de suas partes ser visível, normalmente é a tubulação interna chamada trocador de calor.
No centro, também estão as máquinas a vapor, que podem ser de diversos tipos e ótimos indicadores da idade do navio. Ao longo da evolução da navegação essas diversas configurações foram sofrendo modificações.
A remoção de máquinas e caldeiras é muito rara em um mesmo naufrágio e, até em destroços mais acessíveis, pelo menos uma das duas peças geralmente é encontrada. Assim mesmo, fique atento a grande quantidade de tubulações que levavam o vapor a outros mecanismos do navio, carvão e aos tijolos refratários que isolavam o compartimento das caldeiras.
São alguns exemplos de vapores no Brasil: Eliane Estatatus (Fernando de Noronha), Tocantins (Queimada Grande) e Bellucia (Guarapari).

3 - Navios Mistos

Quando são encontradas tanto as características de vapor como de veleiros estamos diante de navios mistos que dominaram o final do século XIX e início do século XX.
São alguns exemplos no Brasil: o Vapor Bahia (Recife), Buenos Aires (Rio de Janeiro) e Guadiana (Abrolhos).


4 - Navios Modernos

A partir da década de 40 encontramos os navios com motorização a diesel. No Brasil, com grande potencial de naufrágios, temos inclusive exemplos como o Itapagé (AL.), que possuem os dois tipos de máquinas (vapor e diesel), porém o mais comum é encontrar a partir desta data, embarcações com máquinas exclusivamente a diesel.
Nestes navios localizar os motores é muito menos provável, já que são freqüentemente removidos para reutilização. O Madalena (RJ.), teve seu motor levado para Manaus e durante anos serviu como central termoelétrica. O Pinguino (RJ.) quase teve o mesmo destino e o grande rombo na lateral é o resultado de tentativas frustradas de remoção dos motores.
O que resta ao mergulhador é verificar a configuração dos geradores, tanques de diesel e outras peças contemporâneas.
São alguns exemplos de navios modernos no Brasil: Lily (Bombinhas, SC.), Chata de Noronha (PE.).

 

 

  
  
  
  
Sem chute
O mergulhador encontra pistas para identificação quando está diante de um naufrágio. A bigota (no alto à esquerda) e passadores de cabo indicam ser um veleiro (Maracaju ou Maraldi). Ao lado esquerdo está a caldeira do Buenos Aires e acima tijolos refratários que isolavam parte da caldeira do Jequitaia.
Ao lado à direita, um navio misto como o Vapor Bahia tem características múltiplas e exige ainda mais atenção.
 
Curso de Mergulho em Naufrágios

 
 
 

 

Maurício Carvalho é biólogo, instrutor especialista em naufrágios, autor do SINAU (Sistema de Identificação de Naufrágios) e responsável pelo site Naufrágios do Brasil.


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